Bailarina
Bailarina,
Nos teus giros e saltos,
O mundo se transforma em poesia.
Seguindo a tua luz,
A música conduz à fantasia,
E o mundo para, prá te ver bailar.
Os seus passos,
Ritmados, levam sua alma
E você, sem pensar em nada,
Segue, na ponta dos pés, a emoção.
Leva, nos braços em movimento,
Nos pés caminhando em ritmo,
Nas mãos em desalinho,
A força de quem vive prá dançar.
Quando alguém entra na vida da gente de um jeito que não tem explicação, tudo que se escreveu toma sentido. A ele, dedico os poemas desse blog.
Me apaixona
Tuas mãos a me tocar,
Teu riso a me acender.
Tua boca a me beijar,
Teus olhos a me prender.
Minha alma deseja de tudo te amar,
Te quero, te quero com todo meu ser.
Como água cristalina você veio saciar
Minha sede enorme de te querer.
E eu te olho e vejo teu desejo
Rolo e sinto teu corpo, teu beijo
E toda emoção escondida vem à tona
E eu me toco e sinto meu desejo
Minhas mãos te levam do meu jeito
E você vem, me toma e me apaixona.
Por que é tão difícil escrever, quando a situação é real, quando o sentimento importa, quando a emoção está realmente à flor-da-pele?
Imaginar situações, fantasiar pessoas, contar histórias passadas e que já não mais falam ao coração, criar sobre o que se ouviu contar. Tudo isso é fácil. As linhas surgem uma após a outra, como se ditadas.
Não sei se vai ficar como eu gostaria, mas....
Você
Você que me dá vontade de ficar
Você que me segura a mão e me leva
Você que me marca com os dentes
Você que me alimenta a alma
De onde você surgiu?
De que planeta, de que satélite?
Quem é você?
Eu te olho e nos seus olhos me reconheço
Eu te sinto e na sua pele me descubro
Eu te vejo e o tempo são anos
Te imagino na minha vida e gosto
Me fecho nos meus pensamentos e tenho medo
Meus seios me lembram de você e te desejo
Você habita minha mente, será verdade?
Perguntei a cada estrela, não consegui resposta
De onde você veio prá me encantar?
O que é isso que acontece?
Tememos um ao outro, mas não deixamos de tentar.
O Chefe
Ela estava ficando de saco cheio.. Não era possível que aquele homem fosse ficar no pé dela todos os dias, observando e anotando seus movimentos. Parecia que ele era chefe da portaria e não do setor de pesquisas de uma indústria daquele porte.
Ela, preocupada com os testes e simulações que iria fazer, com os materiais que tinham que ser avaliados, com os resultados e relatórios. Ele, nessa contagem sem fim.
Inveja é uma m.... !!!
Chefe incompetente por completo, não conseguia conviver com o fato de que ela, apesar de ser mulher, era muito melhor. Ela sabia exatamente o que, como e quando fazer, era simpática e sociável e tinha amigos por toda parte. Técnica de mão cheia. Em uma área onde os homens imperavam, ela incomodava, e muito.
Um dia, não aguentou. Depois que o chefe disse a ela que estava contando quantas vezes ela tinha ido ao banheiro, surtou em grande estilo. Subiu nas tamancas, rodou a baiana e disse com todas as letras o que pensava:
"Olha, eu vou te dizer uma coisa. Você não tem o que fazer não? Pois eu tenho, e faço. Vai estudar e larga do meu pé. Me esquece." e deu meia volta e foi embora.
Largou aquele sujeitinho com cara de tacho falando sozinho..
Pegou suas coisas e saiu pela porta. Podia ser que ela se ferrasse, mas ia procurar um lugar ao sol, onde as pessoas reconhecessem seu valor. E quanto àquele chefe de m..., queria ver como ele se sairia dessa. Ia ter que arrumar outro santo para ajudar a carregar - ou seria testar? - o fardo..
Posto aqui também a carta que recebi dos meus pais.. Eu os amo muito.. e espero que fiquem bem juntos novamente...
Minha Filha:
Recebemos tua mensagem com carinho pelos 39 anos de casados.
Tivemos reações diferentes, chorei na hora, tua mãe chorou escondido...
Que dia feliz, embora não completo , porque ela vai para Manaus , e você não está aqui. Mais uma comprovação que felicidade completa não existe. Mas foi bom enquanto durou.
Tenho hoje a lembrança de 39 anos atrás, quando ainda não estavas nos nossos projetos e que o que pudesdse acontecer seria bom. Apareceste depois, e não poderia ser mais maravilhoso.
Tua mãe não fala, mas tua chegada mudou realmente minha maneira de viver e me transformou em outra pessoa que vive até hoje.
Obrigado por tudo que fizeste acontecer, e pelo carinho que tens por nos.
Tua mãe e teu pai.
Estela e João
Recolhi esse texto no blog de uma jovem amiga, Isadora Stock. Aos 16 anos, ela vive um grande amor e expôs, em lindas palavras, a saudade que sente. Fiquei emocionada com a intensidade das colocações dela, apesar da pouca idade. Isso significa que não existe idade para amar. Existe alma, desejo, entrega...
"Acho que na última vez que te vi, não pensei que ficaria tanto tempo sem a sua presença. Se tivesse noção disso, teria ido na sua mala embora. Ficar presa numa mala não seria tão sufocante e doloroso quanto ter que permanecer vivendo com a tua ausência. Vida injusta. Tantas pessoas que se odeiam tendo que conviver juntas e até mesmo sob o mesmo teto, e nós que nos amamos, sendo divididos por milhas e milhas. Depois de tudo isso, não preciso dizer a intensidade da saudade que sinto. Uma saudade impiedosa, que consegue dilacerar todo o meu peito, deixando meu coração ferido, mas que mesmo assim se esforça para bater.. só por você."
Isadora Stock - http://isastock.weblogger.terra.com.br/index.htm
Janela
Seria o medo uma barreira grande demais ou o amor, feito luz, ainda pode entrar pelas pequenas janelas que deixamos entreabertas?
Senhoras e Senhores,
Em homenagem a uma nova luz que surge em meu caminho muitas vezes obscuro,
Em um ode à liberdade que todos temos de buscar novos rumos,
Em razão de acreditar que é possível estabelecer relações de confiança,
E pelo amor..
Eu posto aqui a música que mais me toca, que está presente em todos os meus cd's.
Com vocês, Metallica...
Nothing Else Matters
So close no matter how far
couldn't be much more from the heart
forever trusting who we are
and nothing else matters
never opened myself this way
life is ours, we live it our way
all these words I don't just say
and nothing else matters
trust I seek and I find in you
every day for us something new
open mind for a different view
and nothing else matters
never cared for what they do
never cared for what they know
but I know
so close no matter how far
couldn't be much more from the heart
forever trusting who we are
and nothing else matters
never cared for what they do
never cared for what they know
but I know
never opened myself this way
life is ours, we live it our way
all these words I don't just say
and nothing else matters
trust I seek and I find in you
every day for us something new
open mind for a different view
and nothing else matters
never cared for what they say
never cared for games they play
never cared for what they do
never cared for what they know
and I know
so close no matter how far
couldn't be much more from the heart
forever trusting who we are
no nothing else matters
Carinho
Carinho é como comida
Alimenta a alma
Acalma a fome
Satisfaz
Carinho é como fogo
Conforta a dor
Aquece o corpo
Acalenta
Meu carinho vai trazer você de volta
Como criança que quer mais colo
Lembrando momentos de felicidade
Meu carinho vai te fazer falta
E você vai procurar meu abraço
E juntos vamos matar a saudade
Do tempo em que o meu abraço e o teu abraço eram um só...
Trinta e sete - Autobiografia Cronológica?
O que são trinta e sete anos? São aproximadamente treze mil e quinhentos dias, são quase trezentas e vinte e cinco mil horas. Será que o tempo de um ser pode ser medido dessa maneira?
Fico olhando as pessoas se rotularem pela idade, como se o que contasse mesmo não fosse o que se viveu, o que se amou, o que se criou. Tem gente que tem cinquenta anos e nunca amou. Tem gente que tem paixões inesquecíveis aos 16 anos e histórias prá contar.
E o espírito. Conheço pessoas de vinte anos que são mais velhas que meu pai. E olha que meu pai já teve a cabeça mais nova mas alguns tropeços da vida fizeram com que ele envelhecesse muito rápido, décadas em anos. Essas pessoas nos olham muitas vezes com nostalgia de algo que nunca tiveram, nem se aventuram a ter.
Sei que eu amei, muito, muito mesmo. E não me arrependo em momento algum.
De tudo,eu levei vida.
Eu me dei intensamente e o resultado são filhos que me encantam, que dormem colados comigo, que me beijam toda hora e que me respeitam, como mãe e como mulher. De saldo levei também experiência, para não cometer os mesmos erros novamente.
Mas sei que vivi.. e vou viver muito mais ainda. Não me interessa as horas de relógio que já se passaram. Minha mente e corpo fazem um conjunto que prá mim é o ideal. Eu tenho a vivência, conteúdo, neurônios. Tenho também um corpo jovem e saudável que acompanha o pique que eu tenho por dentro. Deus me permitiu isso para que eu use direito. Por isso, eu sigo meus sonhos, busco cumprir as obrigações inerentes ao cargo com muito prazer, alcançar as metas que desejo e fazer sempre o melhor que eu puder.
Não desisto, não descanso. Corro atrás. Afinal, se as horas passam sem perdão, eu tenho que aproveitar cada minuto, pois é um a menos prá deixar marcas da minha passagem.
Zona Turva
Ele vive na Zona Turva. Não permite nenhum contato com o mundo exterior, mal respira. Braços cruzados sobre o peito a proteger-se, não se permite amar. Medo. Sente medo do incerto, do possível. Fecha-se ao mundo, para que o mundo não possa feri-lo.
De onde se enconde, tem apenas vislumbres do amor. Não conhece o enlevo de dar-se, de entregar-se. Deixa para trás sorrisos, carinhos, ternura, pelo simples fatos de que teme não poder viver sem eles. Pensa que não se tem saudade do que não se conhece.
Imagina que amou um dia, quando colocou o olhar para fora da Zona Turva. Ledo engano. O que ele teve foi um suspiro de amor, um pequeno gosto de sentir. Vive preso em um casulo que ele mesmo construiu, de onde controla seu universo restrito. Prefere deixar de tentar a arriscar-se. Medo. Relações são vínculos, vínculos são pontes, pontes podem ser atravessadas por exércitos imaginários que poderiam destruir sua falsa segurança.
Medo. Pensa que o mundo real é o que se pode tocar com as mãos. Que o que existe é o que se vê. Mundo feito de sombras. Do verdadeiro amor, sabe só o que ouviu falar.
Pode ser que ele um dia supere o medo que o domina e saia da prisão em que vive. Então poderá conhecer o prazer de se deixar invadir, tomar, tocar.
Nesse dia, o sol parecerá mais brilhante, e ele olhará o céu estrelado como um manto de luz e verá além das aparências. Olhará aquela que vai ser o seu amor, a quem vai oferecer-se de todo, e verá nela não um inimigo a ser vencido ou temido, mas uma companheira para o caminho. E o caminho fora da Zona Turva terá pedras e flores, mas elas não serão importantes. O importante é que ele será completo, e não um espectro contido, preso nas sombras. Será luz e brilhará.
A carta
Ele mandou uma carta. Uma carta de dor e sofrimento. Ela já previra isso.
Sentou-se na varanda para ler o que já sabia escrito. Na carta, ele dizia que ela era uma estrela, mas tudo que ele sempre fizera foi tentar apagar seu brilho, sua luz.
Ele estava certo. Ela não queria mais vê-lo, nem falar com ele. Queria que tudo que viveram fosse apenas um filme em preto e branco, memórias a serem relembradas nos momentos certos, pelos motivos certos.
Nas linhas confusas, ele colocara o orgulho e a covardia como causas para o fim do romance. Tentativas vãs de disfarçar a realidade. Eles tinham-se entregue ao amor que sentiam, sem reservas ou meias palavras. O ciúme havia destruído, corroído o sentimento tão puro e devastador. Ele jamais acreditou nela, jamais conseguiu ver, cego que era. Se havia um pecado a levantar, seria a escuridão completa em que ele vivia.
Perdido pelas madrugadas, ele carregava hoje o peso das decisões insensatas, das desconfianças sórdidas e da maldade que teimava em habitar seu coração. O remorso pelos julgamentos errados ardia como fogo.
Ela leu a carta e constatou, aliviada, esta já não mais tocava seu coração. Sabia que, apesar das letras trazerem juras de amor eterno, isso passaria, como tudo passa. Um dia, ele também olharia para trás e veria esse amor como uma história distante. Até lá, seguiria errante pelas noites, buscando razões e porquês, até compreender que não haveria mais retorno. O amor havia morrido dentro dela.
Dobrou o papel e guardou dentro de um livro de poemas. Apesar de tudo, fazia parte de sua vida. Uma lição.
Essa mensagem eu recebi do meu filho de dez anos. É uma das grandes paixões da minha vida.
Em homenagem a ele, eu posto aqui as palavras de Madre Tereza de Calcutá, um dos grandes espíritos de luz do nosso planeta.
Assim Mesmo...
Muitas vezes, as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as, assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil, assim mesmo.
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e inimigos verdadeiros.
Vença, assim mesmo.
Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto e franco, assim mesmo.
Se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz, assim mesmo.
O bem que você faz hoje, pode ser esquecido amanhã.
Faça o bem, assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você, assim mesmo.
Veja você que, no final das contas,
É entre você e Deus.
Teu corpo
Teu corpo eu exploro na noite
No teu universo, tudo me seduz
Teus olhos negros brilham, tua pele reluz
Teu desejo quente é meu açoite
Tua voz mansa me encanta em sussurro
Fogo que me enleva, excita e traduz
Tua mão gentil ao prazer me conduz
Devassa minhas fantasias, prazer puro
Teus dedos longos com carinho me afagam
Teus braços me prendem, meu corpo enlaçam
Me entrego ao teu prazer
Sobre ti me posto, meus quadris dançam
Teu sorriso me guia, minham pernas tramam
Tu, objeto de desejo do meu ser
Solidão
A solidão é como um barco à deriva.
Você não sabe onde vai chegar, nem quando, mas sabe que, em algum momento, vai bater na praia, ou outro barco vai te encontrar.
O que você não sabe é se vai conseguir sobreviver até lá.
Phenix
Como a phênix renascida das cinzas, ela acorda todos os dias. Deixa para trás os erros, as dores, abandonados como restos queimados de sua existência e segue para a vida.
No novo dia, oportunidades de sucesso, de reconstrução. Na ave moldada a cada nascer do sol, uma nova esperança. A alma renasce, mais sábia, mais vivida. Das cinzas, ela guarda as lições, que não podem ser esquecidas. No coração, espaço para amores certos e e incertos, na busca de novas chances de ser completa.
Fome
Te beijo
E ao te beijar, me deixo esvair
Pele arrepia e deixa sentir
O calor do teu corpo a me queimar
Mãos ávidas buscam descobrir
As partes de mim por ti intocadas
Íntimo desejo, almas levadas
E sigo perseguindo teu beijo
O fogo ardendo em mim a fluir
Por entre tuas mãos, não quero partir
Te anseio em mim, teu corpo a pesar
Minha boca devora-te, morde, come
Meus seios buscam-te, tesos, têm fome
Meu íntimo te espera, vem me fartar
Completa teu beijo, renova meu ser
Minha alma espera a te desejar
Poker
A vida é um jogo. Você pode jogar o tipo que quiser. Algumas pessoas escolhem o poker.
No poker, existem virtudes que definem o bom jogador. A mais importante delas é saber blefar.
O blefe consiste, na maioria das vezes, em parecer aos parceiros que você tem um jogo alto, quando, na verdade, você não tem nada. E apostar em cima disso, e tentar ganhar. O blefe também pode ser inverso; você ter um excelente jogo, e não deixar que o parceiro perceba, e deixá-lo levantar a aposta, acompanhando, até que você volta em cima e vira a mesa.
Todos esses movimentos exigem que o jogador tenha sangue frio, disfarce bem as emoções e conheça os parceiros. É preciso também ser preciso na hora de aplicar o blefe. O momento errado pode acabar com toda a estratégia.
Existem pessoas que vivem blefando em suas relações de vida. Tentam manipular os amores, dissimulando emoções, fingindo atitudes. Acontece de um dia encontrarem um parceiro diferente, que não vai permitir o blefe. Vai pagar prá ver. E vai seguir em frente.
Eu jogo poker, mas não blefo. Nem admito blefe. Eu pago prá ver.
Mas na verdade, prefiro xadrez. O tabuleiro é aberto, você e o adversário podem pensar, e no final, o mero posicionamento das peças leva ao xeque-mate. Não precisa derrubar o Rei.
Olha, eu encontrei essas instruções no Blog da
Roberta, e achei o máximo. Escolhi o livro espírita "Leis Morais", de Rodolfo Caligaris.
As instruções:
1. Pegue o livro mais próximo de você;
2. Abra o livro na página 23;
3. Ache a quinta frase;
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.
O resultado:
"Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos tem ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus, o qual faz nascer seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos."
Adorei!!! Deus, em sua justiça infinita, nos dá liberdade de ação, para que cheguemos até ele com mérito, através de nossas atitudes.
Simplesmente fantástico !!!
A volta do anzol
Ela esperou, Esperou vê-lo na festa. Tinha certeza de que ele estaria lá. Toda a cidade estava. Dançava para passa o tempo, as músicas se seguindo. Ela estava certa. Ele cruzou seu caminho. Solitário, ao vê-la parou. Beijaram-se, amigos que fingiam ser. Mas os olhares eram os mesmos. E as atitudes também. Ele continuava indo e vindo, ela na espera de uma palavra, que não veio. Cansada de tantas noites em vão, ela despede-se fria. Ela havia avisado a ele que o amor era como um vaso de porcelana, depois que se quebra, mesmo que os pedaços sejam colados com cuidado, não é mais a mesma coisa. Ficam faltando lascas e o excesso de cola aparece. Ele teria que tomar uma atitude esta noite, ou então seria tarde demais. Ela sabia que vaso ia se quebrar. Ele não acreditou na possibilidade, mente confusa que era e se afastou. Ela retomou a dança. Música para ela era um bálsamo.
Take every pain from the inside and throw it all away..., ela faria isso, jogaria tudo fora. Havia um rapaz interessante em seu grupo. Os olhares começaram a surgir, sorrisos e gentilezas. A corte. Sua mente voltou-se para seu amigo perdido. Pensou que seria tão bom se ele a visse com outro. Ele sentiria o que ela sente, o abandono, o descaso, a sensação de não compreender as atitudes. E aprenderia como não agir com os corações alheios. E lá estava ele de volta. Chega, sorri e beija-lhe o pescoço com a mão em suas costas. Ela ensaia um sorriso. Será que ele vai querer retomar tudo novamente? Não. A vontade fraca estampada em seus olhos, o medo de ser feliz não permitiam. Parecia que ele queria que ela estivesse ali esperando por ele, estava demarcando território. Ele não tinha coragem de tomar posse, mas queria que todos soubessem que ele era o dono, ou pelo menos achava que era. Em seu pensamento, ela era dele, e com aquele sorriso ele havia conseguido tocá-la de novo, trazê-la de volta, mantê-la prisioneira do olhar. Ilusão ou engano? Perdido, ele se afasta, para desencavar na mente alguém que não o deseja. Perambula pelo salão olhando o nada. Ela decide, não vai mais esperar. Ele vai saber que ela é uma alma livre, que por opção estava quieta, esperando. Agora ia voar. Abriu a guarda e deixou que o outro rapaz viesse. E entre beijos e abraços, surpreendeu-se feliz. Mesmo que fosse por momentos, estava tendo o carinho de um homem. Mãos e bocas não se largaram mais, e a alma, se refazendo, enchia seu coração de brilho. Nada mais importava. Havia rompido a barreira. Estava livre novamente. O amigo perdido olhou para ela mas não viu seu olhar. Deixou a festa, com uma lição na bagagem. Ela lembrou-se da frase da amiga: É a volta do anzol, vem para todos.
Morto
Morto estava pelo caminho
Espalhado pelo chão, destroçado
Inerte de toda a vida, acabado
E assim foi que o deixaram
Ousaram que ficasse assim largado
Passado ao largo, observado
Tocá-lo, nem pensar, contagioso
Na imagem por si só, retratado
A dor que sentiu o abandonado
E por fim foi recolhido
Com todo cuidado amortalhado
E indigente, terminou sepultado
Na lápide escrito com letras tortas
Aqui jaz o amor a ti destinado
Acabado, morto e enterrado
Soneto de Separação
Vinícius de Morais
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Hoje eu estou mais prá homenagear o poeta do que prá escrever. Na verdade, esse soneto veio para abafar o que eu postei antes, que tá muito pesado. É que tem dias em que o mundo parece que vai cair na minha cabeça e que eu só queria um pouco de colo, e mais nada. Por trás da fortaleza, enconde-se a fragilidade. E você tem que juntar-se e caminhar só, novamente. Mas o que importa é chorar o que tiver que ser chorado, e não se deixar endurecer. Buscar no fundo da alma o sorriso e colocá-lo no rosto na próxima manhã. E sair prá ver o sol.
Odeio
Odeio o tempo que perdi pensando em ti.
Odeio o pensamento de perdão que me chama.
Odeio os momentos que vivi na sua cama.
E a minha mente que teimou em desculpar.
Odeio ter achado que você não mente.
Odeio ter me exposto ao teu alcance.
Odeio termos tido um romance.
E a minha mente ter pensado em te amar.
Te odeio nos teus atos fracos.
Te odeio na tua falta de emoção.
Odeio teus olhos sem direção.
Te odeio na tua vida sem rumo.
Te odeio na tua depressão.
Odeio ter tido essa paixão.
Derramando
Sinto que estou me derramando
Pelas ruas e pessoas por onde passo
Pedaços de mim se derrentendo
Molhando e deixando rastros meus
São meus os sonhos que se espalham
Partes de pensamentos viajam e ficam
Presos nas memórias dos que me olham
Quem me vê percebe a solidão
Escondida por trás dos olhos vivos
Que teimam em olhar em todo lugar
Buscando encontrar seu brilho
E por onde passo me derramo
Para que você possa me encontrar
Seguir meus passos tristes
pelas pessoas, ruas e vielas
Mensageiros que são, inadvertidos
Da minha passagem a te buscar
E quando você me procurar
Junte os pedaços dos meus sonhos
Que se derramaram para te guiar
E traz todos eles na bagagem
Para que eu possa apagar a dor
Do tempo que te perdi na saudade
E nos teus braços me remoldar
As Sem-Razões do amor
Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabe sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Dispensa comentários. Simplesmente maravilhoso.
Gosto
Gosto do gosto teu gosto
Daquela cara de menino travesso
Me virando a alma pelo avesso
Colocando o sorriso no meu rosto
Gosto do cheiro do teu cheiro
Daquele teu abraço apertado
Me fazendo deixar tudo de lado
Arrepiando meu corpo por inteiro
Gosto do olhar do teu olhar
Daquele teu riso moço
Me beijando no pescoço
Fazendo minha alma sonhar
Teu cheiro, teu sabor
outra vez quero sentir
Nos teus braços, partir
Ser tua, teu amor
Stephanie
Ela gosta desse nome. Mesmo que seu ex-marido tivesse dito que era nome de mulher da vida - existe isso mesmo, de nome específico para uma profissão? - ela gosta. É um nome que faz com que ela deixe de ser ela, com todas as obrigações diárias e possa ser outra pessoa. Stephanie é diferente dela.
Stephanie é alta, imponente, marca presença por onde passa. Na Polinésia Francesa, onde vive, ela vende sucos naturais na praia de Parea, na ilha de Huahine e só. Depois de passar anos estudando, pós-graduando-se e outras coisas mais, ela decidiu viver livre de maiores compromissos. Escolheu as Ilhas Marquesas como refúgio, da mesma forma que Marlon Brando e Gaugin. Lá, nas horas vagas, ela faz mergulho, anda a cavalo e faz surf. Lá, ela é apenas Stephanie, e nada mais. Não há horários, nem agendas, nem shoppings. Só a natureza e um contato mínimo com o turismo local. À noite, dorme ao som das danças haka e dos animais da floresta, nos braços do nativo com quem divide o bangalô.
É o retorno ao paraíso. Bem que diziam que o Eden era lá.
Quando ela está sufocada pela vida que tem, quando os problemas são grandes demais para serem suportados, ela se transforma em Stephanie e viaja mentalmente para Huahine, ao sons dos acordes marquisiens. Olha o mar, recupera as forças e retorna, renovada, para sua vida normal.
Um dia, quem sabe...
Build A Bridge
Build a bridge to your mind
Takes me there everytime
Lay it all on the line
If there's a way
Build a bridge, make a path
Overlook the aftermath
Make my tears be your bath
If there's a way
Only if you'll take a ride
Go with me to the other side
Even though it's gonna crumble down
I'll keep building till you come around
Even though it's gonna fall apart, break my heart
I'll keep building 'till i die
Build a bridge of memories
Stretch it out overseas
To the end of the world
If there's a way
Build a bridge made of pain
Send my longing down the drain
Have no reasons to complain
If there's a way
Only if you'll take a ride
Go with me to the other side
Wait... wait for me....wait... please wait for me
Essa música do LimpBizkit é muito linda.. Mostra que não importa o resultado, mesmo
que seu coração se parta, você não pode deixar de construir pontes e caminhos... mesmo que apenas a dor e as lembranças sejam a matéria prima... Banhe-se nas lágrimas e deixe a tristeza ir pelo ralo..
Somente se você se arriscar a viajar, poderá ver o que existe no fim da estrada..
Ululante
A pior coisa que existe é nao saber o que fazer. É aquela coisa de ligo ou não ligo, falo ou não falo. É pra matar.
Na maioria das situações da vida, as decisões, ou estão pré-formatadas, ou já tem um definição com base em hábitos, valores e desejos básicos. Quer água? Sim, se está com sede, caso contrário, não. Fácil, né? Outra. Você que ir escalar o Pico da Neblina? Sim, se você gosta de escaladas e não, caso deteste mato. Mais uma. Vamos tomar um porre? Sim, se você gosta ou se permite beber, ou não, se você não curte a dor de cabeça do dia seguinte ou não gosta de perder o controle da situação.
Mas aqueles momentos em que você não sabe o que fazer e pior, tem todo o tempo do mundo pra pensar, matam de ansiedade.
É isso mesmo, tem tempo pra pensar. Se você é pego de suspresa e tem que decidir de imediato, o subconsciente atua na decisão mais coerente com o que você realmente quer e já foi a resposta. Mas quando você tem tempo pra elaborar, segundo todas as suas convicçoes e valores e desejos e neuras, o que fazer, aí a tomada de decisão é dramática. Ele não liga a uma semana, o que eu faço? Ligo? Não, ele vai pensar que eu estou correndo atrás. Lembra aquele carinha que eu estava saindo ano passado, contando que as mulheres ficavam ligando pra ele e ele ficava todo exibido. Não ligo. E aí? E se ele estiver achando que é a sua vez de ligar? E se ele achar que você não ligou por que não gosta dele, ou por que ele é chato? Ligo. Mas o que eu vou dizer? Qual a desculpa que eu vou dar? Não ligo.
E assim a dúvida corrói a alma e as horas da criatura, até que ela esquece tudo e faz o que manda o coração. Isso poderia ter sido feito desde o princípio. Às vezes dá certo, às vezes não. Do mesmo jeito que as decisões mais pensadas do mundo. Mas pelo menos, não perderíamos tanto tempo tentando elaborar o óbvio ululante, tentando compreender o incompreensível e tentando dar lógica aos sentimento ilógicos.
Dormitando
Ela estava dormitando no trabalho.. assim meio que pescando na frente do computador, quando tocou o celular. O susto da musiquinha fez com que ela desse um pulo da cadeira, como se tivesse sido pega no flagrante pelo chefe, dormindo ao invés de trabalhar. Atendeu com voz de sono. A voz do outro lado disse: "Oi. Queria falar comigo?". Ela nem sabia quem estava falando, quanto mais se queira falar com aquela criatura sem nome e forma, desconhecida de todo. A ativação dos circuitos de memória fez com que algo lá longe gritasse: "É ele! O seu ex!" Aí ela começou a raciocinar. Tinha ligado prá ele e ele não tinha atendido o telefone, ainda com raiva depois do rompimento. Acontece que as contas remanescentes da união desfeita continuaram a chegar e ela não estava disposta a arcar com mais esse peso. Já bastava o saldo negativo emocional. "Olha, era a respeito daquelas duas contas. Deixei o boleto prá você no seu trabalho. Você pagou?" Ele tinha pago e deixado os comprovantes para que ela pegasse no dia seguinte. "Ok, pego lá. Obrigada. Tchau.". E desligou. Nenhuma emoção, o coração continuava batendo normal. Nenhum sinal do amor que antes fazia estragos nela. Respirou aliviada e pensou como era bom que tivesse passado. Agora isso ia ser história, para ser contada nas rodas com as amigas, quando falasse de relacionamentos que não deram certo. E também quando falasse em momentos bons que não seguram relações sem respeito. Que bom. Estava realmente livre. Continuou o que estava fazendo. Foi dormitar. Aliviada.
Do alto da montanha
Acho que meus neurônios tiveram uma sobrecarga temporária. As vias sensoriais de dor e os sistemas cerebrais que regulam sono e vigília se estranharam com as vias motoras, e por isso, eu sinto como se meu corpo fosse desmanchar de cansaço. O pensamento ficou desconexo. Minha voz está rouca, acho que de tensão, ou pode ser que as pregas vocais tenham entrado em greve.
A verdade é que eu pareço um autômato. Alterno madrugadas estudando e olhando para o telefone, esperando não sei quem ligar. Nas horas do dia, tento achar uma saída óbvia ou não para as contas que teimam em ter um volume maior do que a minha conta bancária. Isso tudo por que quem me deve não me paga e quem eu devo é à vista. Negócio mal feito, pagamento dobrado. Batalhas a vencer.
Mas me pergunte se eu sou feliz e eu vou dizer bem alto: SIM. Contas, noites, pregas vocais, tudo isso tem jeito. E o que eu recebi de graça, saúde, cérebro, filhos perfeitos, valores, capacidade de amar, não tem preço. Mas o melhor mesmo, é a sensação de que, apesar de estar lisa, estou muito melhor do que se estivesse presa na torre do castelo. Só quem já olhou o mundo das janelas da torre é que entende o que eu digo. E do alto da montanha, de onde eu vejo a paisagem agora, posso escolher os caminhos e combater os dragões. E vencer. Não pela força, mas pela razão e coerência. E meus neurônios sabem disso, tanto que me poupam um pouco - acho que por isso eu às vezes saio do ar - e não me deixam ficar pensando à toa. Só quando precisa mesmo. Poupar energia para as grandes batalhas. Economia, até nos neurônios.
Amanheceu
Ouço os trovões ao longe, sinto a tempestade chegar, cada vez mais próxima. O som se tornando ensurdecedor. A presença inevitável da chuva se faz pouco a pouco, águas que vem para lavar e levar todas as lágrimas. Meu coração precisa da chuva e a recebe como convidada de honra para festa. Os trovões são arautos que proclamam que as dores serão levadas pela correnteza, afogadas no pranto cuja fonte vai secar. E chove, torrencialmente, e vai carregando o sofrimento, as desilusões, renovando a alma perdida e confusa, e os trovões cada vez mais fortes transformam a tempestade em música, para ouvidos sedentos de consolo. E os pingos fortes enchem ruas, vielas, e cobrem meus pés e molham meu corpo, enquanto derramam sobre mim o alívio. E por longos momentos permito que a chuva me acaricie, deixando sair tudo que pesa e machuca. E os trovões, como a chuva, vão se afastando, mudando de compasso. E a música das gotas do céu vai acalmando a alma limpa. E a tempestade vai passando, como tudo passa. Levando o chorar, o doer, deixando somente a alegria e a esperança que alimenta o mais íntimo sonhar. E no céu, depois dos trovões, nasce o sol e com ele, um novo arco-íris. E a alma sorri feliz. Uma nova manhã começou.
Blog muito legal, postado pela Chrica e pelo Felipe. Vale a pena visitar.
http://www.sentido-abstrato.blogger.com.br/
Fica o recado...
A prova de Neurologia tá me deixando doida.. Os espaços subaracnóideos e os seios venosos da dura-máter podem levar qualquer um à loucura...
Se eu continuar normal, amanhã tem mais...
Sonho
Essa noite sonhei contigo. E como todo sonho, a coerência e a lógica não tem lugar. No sonho, você me amava. O seu olhar sorria. Seus cabelos negros estavam desalinhados pelo vento que soprava à beira mar. A paz imperava naquela praia deserta e fria.
E eu me perdi no seu olhar que sorria. E em um instante eu estava nos seus pensamentos e eles eram tranquilos como o mar da praia deserta e fria. Nós não estavamos mais lá. Seus braços me envolviam em um abraço longo e quente e eu já não sentia mais a areia. Os lençóis estavam por toda parte. Seu corpo se misturava aos lençóis e eu podia ver partes deles se mesclando à minha pele. Já não sabia mais onde começava eu e onde era você. Sentia seu cheiro doce em mim e suas mãos me tocavam. Eu já tonta de prazer, devorava. E me fartava de você. Pernas trançadas em sintonia moviam-se ritmadas. Sua boca brincava em meu pescoço, fazendo-me arrepiar. Minhas unhas faziam caminhos nas suas costas e seu peso me sufocava e me fazia arder de desejo. Sua boca deixava marcas nos meus seios, que se levantavam como que a perdir mais. Por fim, as almas espelhadas em nossos olhos nos diziam saciados. Os lençóis estavam lá por testemunha. Dormi ao seu lado e sonhava e quando acordei, do sonho do sonho, você dormia ao meu lado. Fui até a janela e vi que o dia estava acabando e que não havia mar. Por um momento, olhei para a cama e ela não existia mais. No lugar dela, somente um quarto vazio. E você havia desaparecido. Acordei em prantos. Não sei por quanto tempo durou meu sonho. Mas ainda guardo nos seios as marcas da sua boca. Você ainda tem arranhões nas costas?
Eu fiz uma enquete, inspirada na que eu vi do blog do Jr., do Tubo dIEnsaio, (eu já votei lá). Está aí ao lado, para quem quiser dar sua opinião.
O engraçado é que quando eu estava bolando a enquete, pensei em fazer uma enquete diferente, perguntado às pessoas se existe o amor. Será que o mundo acredita no amor? Quantas pessoas em 100 tem atitudes de amor diárias? Quantas amam? Quantas desejariam ser amadas?
São perguntas interessantes, porque o que se vê pelas ruas é um monte de gente que tem medo de se envolver, de amar, de se deixar amar. Pessoas que preferem a superficialidade do
ficar à possibilidade de ser parte da vida de alguém.
Será medo? Medo de sofrer, de não ser correspondido? Medo de entregar um sentimento a alguém que não mereça? Correr o risco?
Estar vivo envolve riscos. Respirar envolve riscos. Sair de casa também.
Não sei o que acontece, mas estamos cada vez mais isolados, sós, náufragos em uma ilha imaginária, com medo de cruzar o mar e encontrar o continente. Medo dos riscos? O mar pode ser calmo ou agitado, pode ser raso ou fundo, com ou sem tubarões. A tempestade pode ser feroz, mas também pode ser que nem precisemos nadar, que possamos ir andando até o outro lado. O importante é decidir sair do lugar, abrir o coração e deixar que alguém possa tocá-lo. O importante é acreditar que o amor existe, em algum lugar, esperando por nós.
Sapatos
Hoje de manhã entrei no banheiro e, enquanto escovava os dentes, olhei minha sapateira. De novo me deparei com seus sapatos, grandes e marrons, me observando. Num instante, aquela música voltou na minha mente -
e os seus sapatos ainda pisam os meus - e procurei dentro de mim algo de você, que justificasse a presença deles ali. Não encontrei.
O seu lugar estava ocupado. Já havia outro amor - tão confuso quanto - mas pelo menos novo, carregando emoções desconhecidas, lágrimas renovadas, brilho no olhar.
O nosso brilho se apagou. E com ele o amor. Afogado em longas discussões inúteis e pazes feitas na cama. Uma hora a cama não suporta mais o peso das dores e se desfaz, como a nossa literalmente se desfez. E não adiantou remendar, uma, duas vezes. Tornou-se uma cama não confiável. O amor sobre ela, tenso. E acabou.
Hoje vou mandar os sapatos prá sua casa. Não quero mais olhar prá eles de manhã. Não quero que fiquem me seguindo enquanto eu me visto para outro homem. Quero meu banheiro só prá mim.
Papel
Me sinto como uma folha de papel.
Cheia de desejos, memórias ávidas,
Repleta de lembranças cálidas,
E mágoas com o sabor de fel.
Desmancharia essa folha de papel,
Para tirar dela as tristezas.
Remover todas as impurezas,
Restar somente gotas de mel.
Deixaria também as lições,
Arrumaria em parágrafos o sorriso,
E faria das linhas cordões,
Para amarrar os corações.
Escreveria em mim o juízo,
Aprenderia a viver as paixões.
Ondas na praia e macaquinhos no sótão
As horas se passavam e milhares de pensamentos inconstantes seguiam circulando na mente dela, indo e vindo em direções opostas, muitas vezes se chocando e fazendo estragos em sua tão propagada segurança. Passeando pela praia, ela tentava colocar os macaquinhos do sótão prá dormir, cada um na sua caminha. Macaquinhos desobedientes ! O sótão estava uma bagunça e eles se penduravam no lustre pelo rabo, balançando no cérebro dela.
Ricardo. Quando eles se conheceram, ela jamais imaginara que iria se sentir como naquele momento. Na verdade, até tinha sentido um pouco de medo, mas por motivos que hoje pareciam distantes e absolutamente sem importância. Nunca imaginara que iria ficar assim tão... confusa... não pelo que sentia, mas tentando entender essa situação toda, analisando cada palavra, cada passo, cada acontecimento para formar um cenário coerente.
Os dias que passaram juntos desfilavam em sua mente, como fotogramas encadeados. Ela, na sua análise à beira mar, vislumbrava algumas opções para o que estava acontecendo. Uma das opções e a mais óbvia e ululante delas era que ele era homem e isso bastava para que a lógica traçasse as coordenadas. Ele havia sido um irresponsável com ela. Quando ele a envolveu, com aquela conversa de "temos muitas afinidades", ele na verdade havia feito um teatro. Afinal, ele era inteligente o suficiente para isso. Mais. Jogara com as palavras, falando o que ela queria ouvir. Foi mais além, fez com que ela se sentisse querida, para depois desaparecer disfarçado de bom amigo. Bons amigos não dormem juntos. E mais ainda, exibiu-se para os seus amigos. Se ela conseguisse acreditar nisso, seria muito mais fácil esquecê-lo e apagar isso tudo definitivamente, sem remorsos, sem olhar pra trás.
Não conseguia ouvir as ondas batendo na areia. O barulho do ir e vir dos macaquinhos deixavam passar outros pensamentos. Ela não sabia se era o orgulho que não a deixava imaginar-se enganada tão facilmente, ou se alguma coisa que havia visto no olhar perdido dele. Algo lhe dizia que a primeira idéia não era a verdadeira. Que a explicação que ele havia dado de que estava confuso, que pensava que estava pronto mas não estava, que não queria magoá-la porque não sabia do futuro, essa sim traduzia o seu interior conturbado e sofrido. Era o que ela queria ver. Será que era a verdade?
Os macaquinhos do sótão estavam cada vez mais agitados. Travesseiros e rabos se misturavam aos cobertores.
Mesmo assim, aceitando que ele tivesse a melhor das intenções, ela não compreendia. Não entendia porque ele não se deixava consolar. Porque ele teimava em sofrer por alguém que não estava mais ali para ele. Será que era orgulho também?
Ela tentava fazer calar os macacos, tentando prestar atenção na suavidade das ondas. Medite. Medite. Ela precisava de respostas. Mas não estava tendo o menor sucesso.
Era incongruente. Se ela não havia sido o que ele esperava, por que ele havia dito que a amava - antes do tempo, quase uma heresia? Porque ele havia voltado, não desaparecera logo depois da primeira noite? Se ela havia sido mesmo o que ele quis mostrar, a pessoa com quem ele tivera sua melhor noite, a amiga com quem ele gostava de conversar indefinidamente, a mulher que ele comia com os olhos, o colo que acalentava seus pesadelos, por que se afastara dela, nesse silêncio absurdo, que agora corroia a alma?
Os macaquinhos não se cansaram. Continuaram pulando e fazendo bagunça enquanto ela descia do calçadão até a praia. Tinha que molhar os pés no mar. Quem sabe nadar... Podia ser que o frio calasse a galera do sótão.
Aparentemente, tinha duas opções. Desistir e esquecer, ou ficar e ver se ele voltava. Isso era só aparência. No fundo, ela sabia que não tinha opções. Bem que ela tentava sair, colocar a cabeça à tona e respirar, mas não conseguia. Teria que deixar aquele amor morrer aos poucos, para que os macaquinhos se calassem, e ela pudesse ouvir novamente as ondas, perfeitas.
Não sabia para onde nadar. Resignada, deixou-se levar pelo barulho das ondas, até que se afogasse em tristeza ou fosse encontrada à beira mar.
Leitura do meu I-Ching, hoje de madrugada
Hexagrama Atual - Quase Pronto
A situação ainda é incompleta, mas o caos do passado está dando lugar à ordem, e seus objetivos estão à vista. Entretanto, você ainda está andando sobre gelo fino - o caminho está desobstruído, o objetivo é claro, mas uma atitude cautelosa é essencial, ou você pode escorregar e cair.
Linhas Alternantes
Você tem várias linhas em mudança, o que indica uma situação instável.
A primeira linha diz que em períodos de caos, você tem a tendência de ficar superansiosa, joga a cautela para o lado e corre para seus objetivos. Cuidado, você pode escorregar se quiser se ver livre dos problemas muito rápido.
A segunda linha diz que a transição de envolvimentos perigosos para o sucesso é possível, mas você pode não ter a força suficiente para fazê-lo. Peça ajuda aos outros.
A terceira linha dia que o caos inevitavelmente leva a uma nova ordem, busca desenvolvimento. Tenha força e firmeza, para não permitir interferencias contra você.Todas as suas habilidades vão ser necessárias.
A quarta linha diz que tudo está ordenado e a vitória está próxima! Assim como o sol brilha depois da tempestade, a vitória será muito mais bela quando contrastada com as outras possibilidades. Lute incessantemente, siga em frente com cuidado para tomar o que é seu. O momento está pronto para grandes conquistas.
A quinta linha diz que é chegada a hora para se refrescar depois do fim dos conflitos. Celebre e aproveite.
Hexagrama Futuro - Paciência
Proceda cautelosamente, mas resoluta, no que estiver fazendo.A situação clama por consistência e paciência. Esperar é uma habilidade necessária; a paciência, uma força poderosa. O tempo é aliado daqueles com força interior - o tipo de força que faz você ser descompromissadamente honesto com você mesmo, ao seguir o caminho que traçou. Se ocê perseverar nessa atitude positiva, o tempo vai amolecer os mais difíceis obstáculos. Apressar as coisas, ou forçar resultados, estimula a resistência e causa recuos. Esperar tranquila - mantendo sua integridade - leva a melhoras lentas, mas permanentes. No final, você alcança algo grande. Pratique a paciência.
Acho que o cara do I-Ching leu o meu blog e viu que eu sou isso mesmo, ansiosa, apressada, sem paciência, querendo resolver tudo de uma vez... Haja praticar...
Dança
Ao som do gramofone, as horas passavam muito rápidas. Eles dançavam na pequena sala anexa à sala de estar, onde seus pais conversavam, degustando o licor depois do jantar e discutindo a política do continente. Isso não interessava a eles. Queriam uma oportunida de estar juntos e dançar era uma excelente desculpa.
Paulo e Dora se conheceram quando ela, recem chegada de Ponta Porã, estabeleceu-se em Campo Grande. Na bagagem dela, as lembranças da fuga do Paraguai, depois do golpe de estado não ter sido bem sucedido. Os tiros ainda ecoavam em sua mente quando ela desembarcou na estação e os carregadores gritavam: Mala! Mala! E ela e as irmãs não compreenderam porque aquele povo sorria e ao mesmo tempo as ofendia. Elas não conheciam a lingua que se falava nessa terra nova, onde iram recomeçar. Juntamente com o pai, político influente, haviam fugido do país natal, depois da acusação de conspiração contra o governo. Mas isso era passado. Depois de dois anos, novos horizontes haviam surgido e ela estava ali, dançando nos braços de Paulo.
A música envolvia os dois e era única maneira dele tocar seu corpo, já que o namoro era devidamente fiscalizado pela mãe, que não permitia maiores aproximações. Em raras oportunidades, podiam passear pelo jardim, para colecionar beijos roubados e alguns abraços mais apertados.
Mas, apesar dos beijos serem a confirmação do relacionamento deles, dançar era quase que tudo. Ele era um grande dançarino e, nos braços dele, ela se sentia no céu. Música após música, eles ficavam rodando, e rodando e rodando até que os pais decidissem ir embora. Nos bailes, o salão se abria para que eles bailassem pelo salão, despertando a atenção dos outros casais, pela maneira como pareciam um só corpo levado pela melodia.
O encanto durou três maravilhosos anos. Um dia, ele disse que teria que ir estudar em outra cidade, mas que ainda não tinha condições de casar e levá-la. Que ela esperasse por ele, ele viria buscá-la e então se casariam. Ela aceitou e disse em prantos que não dançaria com mais ninguém enquanto ele não voltasse.
Nos primeiros meses, as cartas eram quase que diárias, uma saudade imensa de estar perto, de rodar pelos salões. Contava que dançava sozinha, ao som das músicas que ouviam, pensando nele e nos momentos que passaram. As cartas foram espaçando, semanas, uma ao mês, até que em um janeiro não houve carta, seguida de um fevereiro também silencioso. Ela havia escrito as três últimas, dizendo que tinha saudades e que os bailes que frequentava não tinham o mesmo brilho, que ela quase não dançava mais em casa, esperando por seu par querido. Sem resposta.
E foi murchando, e murchando, e não ouviu mais o gramofone, e parou de ir aos bailes. Depois que soube que ele havia se casado no Rio Grande, tomou uma decisão. Nunca mais dançou.
O texto novo no blog do Jr., que sempre me visita, diz assim:
"Outro dia fui levar minha irmã caçula à mesma escola na qual anos atrás meu segundo irmão também estudou. Não passava por ali fazia um bom tempo e me surpreendi. Parecia que os muros haviam encolhido, ou talvez, tivessem sido reconstruídos numa altura menor, mas, sinceramente, acho que isso não aconteceu. Então me ocorreu um estalo, os anos passam e nós envelhecemos...
A verdade é que os muros continuaram os mesmos e, eu cresci sem querer...
Às vezes, sinto que ainda tenho dez, doze anos, embora o carinha do espelho pareça ser um homem responsável, com barba rala e um bocado de contas para pagar."
Eu tive a mesma sensação quando estive na escola que estudei quando criança.. O muro tinha encolhido e os corredores eram menos largos..
E também não me reconheço no espelho.. A menina que mora dentro do corpo da mulher quer sair de toda forma..
Pena que a gente só vê isso depois que passou.
Mas ainda é tempo de viver, para que a sensação não seja tão forte, quando formos homens e mulheres contando as rugas no rosto daquele ser idoso que vemos na parede do banheiro...
Prá ver o texto inteiro, o endereço dele é: http://www.tubodiensaio.blogspot.com/
Muito bom
Na espera
Fico impressionada como a idade não tem muita importancia quando o assunto é coração. A emoção dos relacionamentos, a espera pela ligação que não vem, a ansiedade dos olhares trocados. A dúvida sobre o amor não correspondido. Pode-se ter 15, 18, 24 ou 37 ou até mesmo mais. A incerteza é a mesma.
Não importa o que já se viveu, ou se ainda não se viveu. Quando a paixão bate, ela vem prá arrasar todas as certezas, os orgulhos, as condutas. A mulher se sente "teen", a moleca se sente mulher. Todas buscam a mesma coisa. Alguém prá deitar a cabeça no ombro, prá brincar de cosquinha, prá falar horas no telefone, prá fazer sorrir.
Onde está aquele cara que mexe com a sua cabeça e com o seu coração? Aquele com quem você gosta de conversar até altas madrugadas, que te olha lá dentro, que te chama de meu amor e realmente sente isso.
Porque beijar é muito fácil, e o resto que vem atrás também. Prá qualquer um. Até no reino animal. Mas a cumplicidade, o carinho sincero, o respeito, o ir-ao-cinema-de-mão-dada é difícil. E no fundo é isso que se quer.
E esperar é
Fl
Ori
DA.
Esse post vai em homenagem a minha querida amiga de muito tempo.. Que escreve bem que só.. Esse texto é dela..
Para visitar, http://www.fotolog.net/guermantes/
Vale a pena pelas imagens e textos..
Para você, meus sinceros parabéns, duquesa...
Beijos..
Queridos súditos,
Sim, vi a luz lá no fim. Mais próxima, porém ainda não ao meu alcance. Pode ser uma miragem, pode até ser um engano. Quem sabe?
Árduo é este caminho de desencontros que parece não ter fim. Ansiosa, me consome não pegar o avião invisível e ultrapassar a velocidade da luz, antecipar minha chegada, desrespeitar o tempo.
Temo que se eu não chegar logo, redirecionarei. Duquesas são assim, inconstantes, quase transitórias.
Duquesa de Guermantes
Veneno
Provo do teu veneno. E gosto. Veneno doce que desce quente na garganta, como um carinho. Ainda sim veneno, pois o desejo de te provar novamente angustia a alma e enlouquece a mente. E corpo, alma e mente assim envenenados definham e morrem lentamente, ávidos de mais um gole, de mais um beijo, mesmo no último suspiro.
Doce veneno, que levou embora minha paz.
Veneno doce, cálice que desejo uma vez mais.
VIDA AMARRADA
Uma Lenda dos Indios Sioux
Conta uma velha lenda dos indios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo...
- Nós nos amamos... e vamos nos casar - disse o jovem. E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã... alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos... que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho emocionado ao ve-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:
- Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada...
Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte... e trazê-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia.
E tu, Touro Bravo - continuou o feiticeiro - deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva!
Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada...
No dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco. O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos... e viu eram verdadeiramente formosos exemplares...
- E agora o que faremos? - perguntou o jovem - as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue?
Ou as cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.
- Não! - disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre sí pelas patas com essas fitas de couro... quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres...
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros... a águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno.
Minutos depois, irritadas pela incapacidade do vôo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.
E o velho disse:
- Jamais esqueçam o que estão vendo... este é o meu conselho.
Vocês são como a águia e o falcão... se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como tambem, cedo ou tarde, começarão a machucar-se... Se quiserem que o amor entre vocês perdure... Voem juntos... Mas jamais amarrados.
Essa lenda sioux espelha bem o que a maioria das pessoas faz com o amor. Amarra, impede de crescer, de voar alto. Ninguém é feliz sem liberdade, sem poder escolher. Que os homens e mulheres entendam que estar junto deve sempre ser uma opção e não uma obrigação, um compromisso de amor consigo mesmo e não uma prisão de onde se olha pela janela com barras. Amar é ser livre, tendo como foco o bem do outro. Se este for o objetivo dos dois, não haverá quebra de laços de respeito e união, e eles serão amantes, amigos, companheiros de jornada, por escolha, por amor.
Um dia
Um dia ela percebeu que havia morrido. O amor que ela sentia por ele desaparecera, levado pela solidão acompanhada e pelos almoços silenciosos. Era engraçado. Ela só percebera que havia conseguido deixar para trás o sentimento quando passou a não sentir mais falta dele. O trabalho o levava por toda a semana e ela não se importava. Foi um processo lento e gradual. Primeiro foram dois dias, que se seguiram a viagens diversas, estendidas por dias e dias. E ela percebeu que não sentia saudades. Pior. Sentia-se melhor quando ele estava longe. Ela era a dona da casa, decidia tudo com mais liberdade e conseguia que os empregados, os filhos e as contas ficassem mais bem organizados do que quando ele estava presente. Sua mente também ficava melhor. Ninguém iria chegar bêbado em casa, iniciando discussões madrugada adentro, que eventualmente terminavam em choro e feridas, emocionais e físicas. Ninguém iria reclamar da roupa com um amassado, ou do pó por sobre as molduras dos quadros. Paz. Era isso que ela sentia. Paz.
Nesse dia ela percebeu que estava livre. Livre da dor, dos olhos inchados. Ainda não livre de todo o medo, mas ainda sim mais livre.
E sentiu-se feliz por dentro. Sabia que a oportunidade viria para que ela rompesse as últimas amarras. E fosse ser ela mesma, por compelto, em outro lugar.
Loucura
É muito louco você observar alguém se desmanchar. E esse alguém ser tão importante para você que você pensa que vai desmanchar junto. E esse processo de desintegração vai desde o corpo, que envelhece e murcha e some até a mente brilhante que deixa de ter sentido, lógica, foco.
E você se afasta, pois o desmanchar vai respingando em você e você sente a sua roupa se manchar pelos pingos. E você desvia o olhar porque se você olhar muito pode se desintegrar junto. Porque é contagioso. Porque o pensamento ilógico dá vazão à raiva, ao sentir desconexo e isso fere. E incita. E envolve, e você não pode se deixar contaminar.
E a única coisa que você espera é que o que se desmanchou possa se recompor um dia. E então você terá de volta a sua mãe, exatamente do jeito que ela era.
Vazio
Em minha cama, rolo e não posso dormir;
Suas mãos sobem pelo meu corpo solitário.
Minhas mãos brincam que são as suas,
Só para não te deixar partir.
Partir, pois você comigo não mais existe.
O que restou da sua pele no meu desejo,
Ainda assombra minhas noites insones,
E minha boca anseia pelo teu beijo triste.
Meus lençois molhados de mim trançam
Entre minhas pernas e dançam
Buscando encontrar
Seu abraço é o vazio onde me lanço
Vou e volto, buscando em balanço
Desisto de lutar
Eu fui "solicitada" a fazer um texto para cada uma das minhas filhas, e não quis fazer uma antes da outra, prá não dar ciúme...
Essa poesia é para elas, as minhas princesas, cada uma no seu estágio de amor...
Primeiro Amor
No olhos dele, ela vê algo novo,
Ele é luz, guia seus caminhos,
Faz muita coisa ter sentido,
Ela ilumina os passos dele.
Ela sorri e abraça e beija,
Ele sorri e beija e roda,
Dois brilhos, duas mãos,
Passeando e descobrindo.
Primeiro amor, primeiro riso;
Primeiro choro, primeira volta;
Primeira falta, primeira saudade.
Primeiro olhar, primeiro medo;
Primeira dúvida, primeira certeza;
Primeiro amor, felicidade.
Coragem
Ele tinha saído com a intenção de se distrair. Tinha brigado com a namorada, sábado à noite, iria espairecer em algum lugar. Ligou prá um amigo, estava gripado; prá outro, não ia sair porque tinha que acordar cedo no dia seguinte. Última tentativa. Vamos? Onde? Não sei. Qualquer lugar. O pessoal vai pro Safari? Feito. Afinal, companhia para rir e falar besteira. Desopilar o fígado.
O lugar estava tranquilo, a banda tocava
Wish you were here, o chopp rolando. Procurou o amigo. Ele estava no cantinho, com o resto da turma da faculdade. Maravilha. Juntou-se a eles e começaram a colocar a conversa em dia. Papo-cabeça.
Momentos depois, uma olhada melhor no local revelou que a noite não ia ser tão tranquila. Lá estava ela. Aquela mulher que havia mexido tanto com a sua cabeça. Aquela com quem passara os melhores momentos de sua vida e de quem se despedira com um buque de flores e um cartão. Coisas não resolvidas.
As lembranças dos momentos com ela começaram a passar em sua mente como um filme. O que o amigo ao lado falava já não tinha importancia. O lugar desaparecera. Só tinha olhos para ela.
Ela estava linda. Rindo, feliz, acompanhada de uma amiga. Será que ela está feliz? Será que ela continua sozinha ou está esperando alguém? Resolveu ficar um pouco de longe, analisando a situação.
O motivo da separação tinha sido a estupidez dele. Quando se conheceram, ele tinha levado um fora da namorada. Estava desnorteado. Ela também estava saindo de um relacionamento longo. Afinidades. No dia em que se encontraram casualmente na praia e começaram a conversar, o dia acabou e eles nem perceberam. A essa conversa seguiram-se outras e outras, até que estavam inseparáveis. E rolou. Rolou o beijo, a emoção e ele adorava estar com ela. Mas a sombra não havia desaparecido. Ainda pensava na ex. Mas decidiu levar à frente, até que uma noite em que saíram prá jantar a ex ligou, dizendo que queria voltar. E ele desmontou, desfez-se me lágrimas. Ela viu o semblante dele, torturado pela dúvida. Quer ir embora? Não. Quer conversar? Quero. E falou tudo a ela. Disse que tinha saudades da ex, que não sabia o que fazer, que estava perdido e ela ficara olhando pra ele em silêncio, como se lesse sua alma. Depois daquele silêncio interminável, ela disse que entendia o que ele estava passando, que queria o melhor para os dois, mas que merecia um homem por interio. Que ele resolvesse a vida dele e depois voltasse. Poderia ser que ela estivesse disponível. Depois pediu que ele a deixasse em casa. Que vergonha! Ele era um fraco e ela, uma mulher maravilhosa. Dias depois, durante os quais ele não teve coragem de ligar, se escondeu atrás do buque de flores com cartão, encaminhado pela floricultura, dizendo que ela era maravilhosa, mas que no momento ele não estava pronto. Voltara com a ex e logo percebera o erro. O relacionamento dos dois jamais seria a mesma coisa. E ele tinha deixado que ela saísse de sua vida. Haviam se cruzado em aniversários de amigos comuns, mas ela mantivera a distãncia e ele, apesar de mortificado, tinha tentado ficar o mais próximo possível, a espera de um olhar, ou de um sinal de que ela o havia perdoado. Nada. Agora ela estava ali, na sua frente, irradiando alegria. E ele também estava ali, infeliz.
Depois de meia hora, ela continuava a conversar com as amigas, sem sinal de algum compromisso. Decidiu ir lá. Ver a reação.
Desastre total. Ela falou com ele muito bem, sorridente, mas nem sinal de emoção. Será que ela tinha esquecido dele? Voltou ao seu grupo, observando de longe.
Um momento de distração e ela e a amiga desapareceram. Saiu procurando pelo bar até que a localizou. Haviam mudado de lugar. Estavam conversando com dois rapazes e a conversa estava animada. Ela conversava com o rapaz mais novo e a amiga, com o outro de barba. Ele ficou por ali, encontrou um conhecido por perto e começou uma conversa qualquer. Os olhos não saiam dela. Cada vez que ela sorria das coisas que o rapaz falava em seu ouvido, ele sentia um aperto no peito. Depois de quinze minutos, aquilo tinha se tornado insuportável. Não podia continuar a ver aquela cena. Foi se despedir. Podia ser que na despedida ela desse a ele aquele sorriso diferente, aquele que ele havia tido e jogara fora. Inútil. Ela se despediu normalmente, apresentou a amiga e ignorou a presença dele, voltando a conversar com o rapaz. Foi embora em pedaços. Da namorada que ficou em casa, nem lembrança. Voltou sozinho e pensativo. Algum dia teria coragem de dar fim naquela palhaçada que era seu namoro e iria tentar reconquistá-la. Quando isso acontecesse, ele seria feliz. Só tinha que descobrir onde vendia essa coisa, CORAGEM.
Oração
Obrigado,
É só o que eu eu posso te dizer.
Obrigado por ter me dado carinho e atenção;
Obrigado por ter me respeitado;
Obrigado por ter me dito o que ia no seu coração;
Obrigado por ter sido sincero.
Que a nossa amizade seja sempre muito dez;
Que a gente possa se ajudar, mesmo à distância;
Que você encontre o que procura;
Que você seja feliz,
Que eu seja feliz;
Que nós dois encontremos um amor que valha a pena;
Que a vida nos apresente coisas boas;
Que possamos sempre andar de cabeça erguida.
Que tudo fique gravado no coração;
Que tudo sirva de lição;
Que a gente se respeite cada dia mais;
Que a gente sobreviva à vida.
Que o mundo não nos abandone;
Que mesmo abandonando a gente seja forte;
Que a gente saiba distinguir o bem do mal;
Que Deus guie sempre nossos passos;
Que as pessoas que entrem em nossas vidas sejam sinceras;
Que o amor permeie nossos passos;
Que você seja sempre assim, verdadeiro;
Que a luz esteja sempre conosco.
Que a música nos traga boas lembranças;
Que as lembrança sejam sempre felizes;
Que você sorria sempre;
Assim como eu.
Normal
Ela anda pelas ruas e sabe que chama atenção. Não que ela seja uma mulher alta, exuberante. Ou que ela fique paquerando por aí. Ela não sabe o que é. Apenas sabe que olham e olham e olham. Deve ser o cheiro de mulher solteira, de fêmea no cio, que desperta a atenção dos machos de plantão. E ela gosta. Faz que não vê, que não percebe. E segue, deixando um rastro de pescoços torcidos e queixos caídos. Normal.
Pecado
Liberta-me.
Diz que não me deseja,
Que não quer beijar minha boca,
Que não tem fome de mim.
Liberta-me.
Olha como se não tivesse paixão,
Como se não me quisesse louca,
Como se agora fosse o fim.
Nega que me despe com os olhos,
Que não quer meu tesão,
Que não quer me tocar.
Confessa que só foi um pecado,
Que já passou a emoção,
Que não vai mais me amar.
Esses versos foram escritos no começo do século passado, por essa grande poetisa, Florbela Espanca.
Ela era uma mulher além do seu tempo, capaz de sentimentos até então não permitidos.
Muito bom.
Fanatismo
Florbela Espanca
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Metáforas
Metáforas podem ocultar
O prazer que sinto em teus braços.
Vento beijando as montanhas.
Mar acariciando a rocha.
Sol descobrindo a escuridão.
Você me penetra por todos os poros
E me traduz em poesia.
Ilumina meu ser e irradia,
Traz à tona emoções perdidas.
Florescem minhas ilusões
E colho somente lágrimas.
Guardo
O toque dos ventos
O barulho do mar
A luz do sol
Metáforas de ti
Sombras
Você é a sombra que eu vejo
Ao meu lado na cama
Cada vez que vou dormir.
Seu corpo me faz falta.
Não consigo pensar.
Não posso mais sonhar.
Sinto falta de você.
Onde você está?
Onde anda sua mente?
Você consegue dormir?
Consegue não pensar em mim?
Sei que essas perguntas
Não tem resposta.
A minha angústia ecoa,
Me assombra as madrugadas.
Não tenho descanso.
Me resta somente o vazio
Das suas palavras não ditas,
Da sua ausência,
Do meu nada.
Ontem estávamos determinando significados de palavras. Protopático, epicrítico, fudãozinho, pafu, caxifu, neurotendinosos, basófilos e outras coisinhas mais. Acho que daqui para o fim do ano, sai um novo dicionário.
Básico.
Amizade
Chegou no aeroporto e imediatamente ligou. Cheguei!!! Vem prá cá, a gente tá te esperando prá almoçar. O coração bateu forte. Tinha vinte anos que ela não encontrava os amigos da época da escola. Como estariam agora? Casara cedo e acompanhara o marido de mudança para outro estado. A distância e a nova vida a separaram do grupo. Agora, depois do divórcio e de colocar algumas coisas em ordem, ela estava retomando assuntos interrompidos. As amizades da adolescencia se enquadravam nessa categoria.
Encontrara na internet o site do colégio, com fotos antigas e recentes, dos encontros que os amigos promoviam eventualmente. Procurou decifrar quem era quem. Uns tinham ficado carecas, outros continuavam bonitos. As mulheres estavam todas com a mesma cara de antes, sinal que a vaidade mantinha todo mundo na linha. Mas pelas fotos não tinha como antecipar o clima do reencontro. Afinal, ela havia ficado muito tempo afastada de todos, envolvida com uma vida muito diferente. Filhos, cidade pequena, casamento. As amigas não haviam se casado. Os dois melhores amigos estavam descasados. Como teria sido a vida deles durante esse tempo todo? No mínimo, teriam assunto prá cem anos.
Enquanto olhava a paisagem do aterro, tudo lhe parecia familiar. Sentia-se em casa. Lembrava-se dos momentos vividos naquela cidade. Passando por Copacabana, comentou com o motorista do taxi que nada havia mudado muito. As padarias e mercearias estavam no mesmo lugar. O trânsito das pessoas continuava o mesmo.
Chegara no prédio do Carlinhos. Ele havia sido um dos seus melhores amigos durante o 2º grau. Tinha até rolado alguma coisa a mais, mas a amizade continuara. Estudavam juntos, na mesa redonda de sua casa. Se fechasse os olhos poderia ver a cena de novo. Ele todo enrolado com as equações matemáticas e ela fazendo graça, tirando onda com ele. Subindo no elevadoro coração batia apertado. Como ele iria recebê-la? Será que a Grace já tinha chegado? E o Breno? Tocou a campainha e esperou. O irmão dele atendeu a porta e gritou: Carlinhso, a Christininha chegou! Christininha. A quanto tempo não a chamavam assim. O sorriso e o abraço apertado do amigo querido quebraram qualquer dúvida. A amizade ainda existia. A namorada dele estava lá também e era um amor de pessoa. Enquanto a Grace não chegava, conversaram sobre a vida. Ele muito curioso sobre o que ela havia feito nesse tempo todo. Histórias de um lado e de outro, muitas lembranças. Ao toque da campainha, ela se levanta : Grace. A melhor amiga, a única que sabia quando ela tinha transado pela primeira vez, que era o ombro amigo de todas as horas, que havia chorado horrores quando soube que ela ia embora da cidade. O reeencontro foi inesquecível. Os vinte anos que passaram separadas deixaram de existir no momento em que se abraçaram. A afinidade era enorme. Conversas e mais conversas e risadas e histórias dos amigos preencheram a tarde, quando se juntaram ao Breno e Elisa no restaurante. Breno, o engraçadinho, já tinha passado um e-mail lembrando o beijo que trocaram aos dezesseis anos, segundo ele "o melhor beijo que ele já tinha dado na vida". Estava com a namoradinha de dezoito anos, mas mesmo assim o abraço, meio amasso que deu nela tirou a respiração. Velhos tempos. Elisa continuava doida, apesar de ser uma advogada conceituada. Turma reunida novamente. Depois de muita conversa, despediram-se e marcaram a saída da noite. Dançaram ao som da Paula Toller até as quatro.
No domingo, ela foi passar a páscoa com a melhor amiga. Almoçaram e foram passear no calçadão. Conversaram e trocaram confidências, como se a separação tivesse sido na semana passada. A ligação forte havia ficado, independente do tempo. Falaram de família, pais e mães, de amores novos, casos passados, dores, alegrias. Ela contou dos filhos, descreveu cada um e Grace passou a conhecê-los intimamente. Contou dos maridos, namorados, das separações. Soube das decepções, das vitórias. Traçaram juntas planos para o futuro, como que se apoiando.
11 horas. Tinha que arrumar as malas para retornar. A despedida foi difícil, como se não quisessem se perder de novo.
Não se perderiam, existem coisas que não se perdem, nem com o passar dos anos. As verdadeiras amizades sobrevivem à distância. São eternas.
Esse é do Vitor, do blog MetrôLinguagem.
http://www.metrolinguagem.blogger.com.br/
Ele tem muita coisa boa.
Lá vai.
A certeza da dúvida
Se existe algo com que podemos contar durante toda a nossa vida é a dúvida. Percebi, nos últimos tempos, o quanto a dúvida nos mostra a verdade sobre o que sentimos ou queremos. Entendo agora que, muitas vezes, algo nos é tão importante, mas ao mesmo tempo tão modificador e inevitável, que criamos barreiras, que procuramos motivos para não aceitar essa coisa. Por isso mesmo, acabamos não tendo certeza. Não sabemos se queremos ou não. Sabe de uma coisa? É exatamente ao contrário do que pregam: se você não quisesse, saberia. Quantas vezes você não quis uma coisa com uma certeza inacreditável? E quantas vezes você teve essa certeza sobre algo que você queria? Quando prestou vestibular, tinha certeza da escolha? Como poderia? Não conhecia o suficiente a escolha que estava tomando. A verdade é que quando algo é grande demais, a dúvida vem. E quantas vezes você estava em dúvida sobre alguma coisa e, depois que criou coragem e fez, percebeu que tinha feito a coisa certa?
Acho que todo mundo tem medo de casar. Casar significa se comprometer com algo, alguém, e aceitar que isso deve ser para sempre. E para sempre é tempo demais. Acho que o grande problema é exatamente esse. Se as pessoas aceitassem que querem alguma coisa, ao invés de ficar pensando até que ponto querem e por quanto tempo quererão, a vida seria muito mais fácil. As coisas que realmente valem a pena nessa vida também trazem milhares de dúvidas. É como saltar de Bungee Jump. Você terá dúvida até o último segundo. Na verdade, o momento de maior dúvida e hesitação será exatamente o momento do salto, aquele ponto em que você já está preso à corda, parado à beira do abismo. E encarando o vazio. Será que a corda está bem presa? Será que eu vou sobreviver? Difícil de dizer antes do fim. São os riscos das grandes decisões. Mas pense bem: você já está aqui e as chances de algo dar errado são pequenas. O benefício, o prazer, enormes. Vai perder a chance? Se realmente não quisesse fazê-lo, você dificilmente teria chegado a esse ponto.
Então, quando estiver numa dúvida existencial incrível, pense bem: se você tivesse certeza, ela seria de que você não quer fazer isso. A gente só tem certeza de que quer algo depois que já fez. Ou depois que perdeu essa chance - e aí já é tarde. Eu já me arrependi demais por não ter feito algo devido por não estar certo de querer. E também já fui muito feliz, nas vezes em que aceitei a dúvida como parte da certeza. Aprendi minha lição. Em dúvida, salte.
Eu sei bem o que eu não quero. Já é um começo.
Sei de algumas coisas que quero.
Luto por isso, mesmo que muitas vezes a dúvida exista.
Tudo que a gente faz com o coração aberto vale a pena.
Eu já saltei. Prá vida. Estou planando, e de onde eu estou a vista é linda.
Não me arrependo.
Futuro do Pretérito
Amor,
Um dia você ainda vai ler esse blog e ter noção do que perdemos...ou deixamos de viver...
Você para mim seria um grande amor, além de um grande amigo. Quando nós conversássemos, o tempo passaria muito rápido e teríamos sempre algo a falar.
Brincaríamos sempre, sorrindo e rindo das caras e bocas do outro. Contaríamos pintas e ouviríamos música.
Nossos amigos não seriam comuns, mas complementares. Teríamos a liberdade de sermos nós, sem deixarmos de ser um do outro.
As noites seriam eternas, assim como os dias.
As eventuais discordâncias (elas existem para todos), seriam solucionadas com muita franqueza e sinceridade. Afinal, essa foi a base do nosso encontro.
O sexo seria fantástico, porque o beijo é.
E eu teria muito a te oferecer e você a mim.
Eu te falaria a respeito da vida, sobre o novo planeta, e você me ensinaria a ser criança, jogar RPG e pular na cachoeira.
Caminharíamos lado a lado. Mãos dadas. Doação sem cobranças. Vidas que se encaixariam sem sobrepor. Unidas.
Mas vai ficar para a próxima encarnação. Com certeza nos encontraremos de novo e espero que você esteja melhor da próxima vez.
Te quero muito bem,
da sua grande amiga.
Esse texto é da Cecília, aquela de quem eu referi o blog outro dia.
Casa perfeitamente com o que eu sinto hoje.
Eu decidi que não vou ligar, vou tratar como amigo, mandando e-mails casuais como eu mando prá todo mundo. Mas, como diz a Cecília, doi prá caralho.
Dilaceração
O amor que não acontece é pior que punhalada. O amor idealizado, amor-mentira, feito de enganação. Esse dói pra caralho. É quando você não sabe se fica com ódio da pessoa, ou passa a desejá-la mais ainda, como um refúgio da decepção. Quando você fica com vergonha do seu próprio espelho, por ter gasto tanto amor por nada, quando você se sente traído por si mesmo, até o último átomo dos seus sentimentos. Amor de brinquedo. Material vagabundo, que quebra na primeira corda que se dá. Dói pra caralho mesmo. Reforça todos os medos do mundo. Reforça o nada ao qual a solidão encerra. Machuca com violência o que de melhor se pode oferecer a outra pessoa. Machuca pra cacete. É o amor dos dias em que você tira tudo do pouco que você tem, e recebe uma parte muito ruim de volta. Recebe o vazio. Aquele que você faz de tudo pra esquecer, pra deixar a ferida lá, sem ser tocada, a ferida aberta, esperando cicatriz. Mas é foda, porque nesse momento, a razão saiu pra viajar, e você fica só, com o seu amor fracassado. Condenado a sentir tudo, todos os vazios, toda a decepção, até acabar. E dói. Dói muito. Dói pra caralho. Dói até o fim.
Muito bem dito...
Queria escrever alguma coisa sobre o meu pai, mas não consigo.. Acho que quando a coisa é muito, muito forte, a gente fica com um nó na garganta, e nos dedinhos..
Para ele, a oração de São Francisco.
Que o coração se abra e deixe o ódio ir embora.
Que ele deixe que Deus limpe as feridas e cure, mesmo que deixando cicatrizes.
Que ele não esqueça o quanto a gente sente falta dele.
Oração de São Francisco
Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz;
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
Onde houver erros, que eu leve a verdade;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei com que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado;
Pois é dando que se recebe;
É perdoando, que se é perdoado;
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
No ônibus
Todos os dias ela fazia o mesmo itinerário. Já conhecia todas as curvas do caminho percorrido pela linha de ônibus, que a levava de casa até a faculdade. Os bares, com as tradicionais rodinhas de fim de tarde, onde homens das mais variadas idades tomavam cerveja para relaxar. As mercearias de onde entravam e saiam menininhas magricelas que andavam em pares, com o dinheiro do pão enrolado na mão. Edifícios, viadutos, passarelas, a face urbana da cidade já lhe era bem familiar. Até as pessoas que costumeiramente apanhavam aquele ônibus naquele horário já eram velhas conhecidas. A mulher gordinha que levava lanche para vender no intervalo da faculdade, junto com a filha, que não devia ter mais que oito anos. O rapaz comprido que saltava sempre no ponto do boulevard. As duas mocinhas que aparentemente voltavam da escola. Faziam aquele trajeto juntos há tanto tempo que até já se cumprimentavam.
Mas naquele dia havia alguém no ônibus que lhe chamara a atenção. Um rapaz todo arrumado, com uma pasta na mão e um ar de esperança no rosto, tão bonito que não poderia passar despercebido. Na verdade ele nem era tão bonito, mas era diferente. Acho que era o olhar ao longe, tão sonhador que incomodava. Era como se ele não estivesse no ônibus, mas em Marte, explorando mistérios insondáveis. Tão entretida ficou ao observar o rapaz que não percebeu o perigo.
Sobressaltou-se quando ele olhou para ela e os olhares se cruzaram. Isso não era para ter acontecido. Baixou os olhos imediatamente. E agora? Ele vai pensar que ela estava de paquera. Que besteira! O único jeito vai ser ficar de cabeça baixa o resto da viagem, olhando os pés, seus e dos que passavam. Um sapato alto vermelho toc-tocava pelo corredor. Como alguém pode andar de ônibus com aquele salto? Um par de alparcatas. Pezinhos calçados em melissinhas coloridas. Sapatos masculinos. Belos sapatos masculinos vinham caminhando em sua direção. Pararam ao seu lado. Ela subiu os olhos pelas pernas que acompanhavam os sapatos e deparou-se com ele, ali, olhando para ela. Prendeu a respiração. Ele tinha percebido. Ele tinha visto que ela o estava fitando, quem sabe já tinha visto de rabo de olho e só olhou mesmo pra conferir. Ele sorriu. “Você é muito bonita! Posso falar com vc?”. O coração parecia que ia sair pela boca. Sem saber o que dizer, ela simplesmente ficou olhando para ele, como que hipnotizada pelos olhos sonhadores, que agora ela via, eram cor de mel. Lembrou-se que ele estava esperando uma resposta. “Desculpe mas eu não entendi.” “Eu gostaria de falar com vc.” Cada vez mais sem saída, ela respondeu apressada: “Eu tenho que descer agora, mas esse é o meu trajeto todos os dias. Você vai sempre me ver aqui.” Antes que ele pudesse falar alguma coisa, ela levantou e correu para a frente do ônibus, que acabava de chegar no ponto da faculdade. Desceu apressada e não olhou para trás. O medo de ver os olhos dele olhando para ela era grande demais. Quando o ônibus foi se afastando, ela arriscou uma viradinha. E lá estava ele, olhando pelo vidro. Mas uma vez os olhares se cruzaram. E ela teve a certeza de que ele estaria no mesmo ônibus no dia seguinte.
Colo
Hoje eu queria tua presença prá me dar colo. Aquele abraço que conforta, que acalenta.
Hoje eu queria teu sorriso prá me dar alegria. Brincar, pular e rir sem parar.
Hoje eu te queria prá procurar música, vendo as letras e achando um sentido nelas.
Hoje eu te queria prá falar de física quântica, de trilhos de trem, de relatividade.
Hoje eu te queria prá andar a cavalo nas suas costas, prá fazer cosquinha, prá cantar junto.
Hoje eu te queria prá me dar sushi na boca, junto com chá de pêssego.
Hoje eu queria teu colo.
Hoje eu te queria.
Esse blog também vale a pena visitar.
Cara, eu tô aprendendo muito navegando pelos blogs que tenho encontrado, graças, principalmente, à Cecília, que tem uma listinha básica no blog dela.
Tá aí.
http://www.metrolinguagem.blogger.com.br/
Não perca.
Digital
Será que amor existe mesmo? Ou será somente alguma coisa que nos ensinaram que deveríamos sentir? Será que esse sentimento que faz meu coração bater descompassado quando toca o telefone é amor? Será que a boca seca quando vou falar contigo é amor? O que será o desejo que sinto quando você me toca? O que será a doçura de te ver dormindo? Será amor?
Só sei que por mais que tente te esquecer não consigo. Pensar em outras mãos e outras bocas e outros olhos e no som de outro coração não é possível. Não me desce. Penso e desisto de imediato. O nome disso pode ser amor.
E não pode ser copiado, é único, causa uma impressão no coração do outro tão exclusiva quanto uma digital.
Mas, e se ficar só a digital? E se você se foi para não mais voltar?
Acho que a saída vai ser te deixar desvanescer, apagar-se, como uma marca de tinta que o tempo torna cada vez mais e mais suave.
E você será apenas uma lembrança, com as da infância.
E aquele sentimento - será que é amor? - terá outro destino, será outra digital. Outras mãos, outro corpo a dormir.
Tudo isso é fato. Sabe-se certo.
O medo que dá é um só.
Será que essa digital pode ser - pelo menos uma vez - insubstituível?
Areia
Sinto o tempo como meu inimigo
Os segundos comem vorazes
Esperanças e ilusão
Se entrelaçam sem fazer sentido
Deixando-nos julgar capazes
Ardendo em paixão
Como que areia
Você me escorre entre os dedos
Se torna imagem perdida
Dançando pelas veias
Se enconde como brinquedo
Se apagando da minha vida
Os amigos brindavam. É claro que ela se sentia bem ali. Cercada pelos colegas da faculdade, ela estava em casa. A cervejaria fervilhava de gente. Todos em busca de alguma coisa. Diversão, amor, romance, casamento, sexo, atenção. É verdade, algumas pessoas saem para a noite em busca de atenção. Aquelas criaturas que ficam dançando sozinhas na frente do palco, que dançam até a noite terminar, sem um único amigo na casa, essas pessoas buscam atenção. Pelo menos ali, alguém está prestando atenção no que elas fazem. Mas ela não buscava atenção, queria apenas passar bons momentos, rir um pouco, e esquecer que ele não havia ligado durante os últimos dois dias. Nem tinha respondido ao e-mail onde ela perguntava o que ele havia achado da poesia feita prá ele. Silêncio total.
Mas não importava muito naquela hora. Os amigos estavam lá e a conversa seguia animada. Ela queira ir logo para a pista, onde a banda tocava músicas dos anos 70/80. Ela se lembrou dos primeiros bailes, do primeiro namorado. Ele tinha sido seu primeiro amor. E ela que tinha terminado o namoro, depois de perceber que não havia nada em comum entre os dois. Além disso, ele não deixava que ela tivesse amigos. Ele passou seis meses atrás dela, cercando pelas esquinas, observando enquanto ela namorava outro carinha. Só desistiu quando viu que ela ia se casar. Nunca mais pensou nele. Nem sentiu saudades. Agora sentia saudades daquele menino. Que coisa louca.
Não aguentava mais ficar sentada. Queira dançar. Dançar e cantar diminuía a dor. Será que essa era uma dor nova, ou só aquela antiga dor revisitada? Aquela que costumava sair das profundezas da mente e lembrar a ela de como ela não seria capaz de reconstruir a vida, de que ninguém iria querer ficar com ela. Quem era o louco que ia querer uma criatura com tantas responsabilidades? Tanta mulher jovem, bonita e disponível no mundo, por que alguém iria escolhê-la? Só o doido do seu ex-namorado. Por isso ela ficara tanto tempo com ele, tentando fazer dar certo. Seria difícil achar outro doido. Não adiantava os outros dizerem a ela que ela era uma mulher bonita, inteligente e que não aparentava a idade que tinha. Isso não importava. Apesar de parecer ter menos de trinta anos, nada iria apagar o que ela havia vivido. A certeza de não iria conseguir uma relação saudável e amorosa permanecia palpitando em sua mente. Era ela de novo. A dor. Queria empurrá-la de volta para o porão de onde nunca deveria ter saído. E ía fazer isso com música.
Levantou e começou a dançar. Os outros se contagiaram e seguiram para a pista de dança, onde aquelas figuras de plantão já estavam posicionadas. Casais dançavam mais juntinhos, rodinhas de amigos, homens e mulheres em busca de um olhar cruzado.
Dançaram até as duas. Cantaram as dores do coração e fizeram declarações de amor para quem não estava lá. Dançaram, imaginando que alguém estivesse vendo. Na verdade, ela desejou até o último momento vê-lo entrar e sorrir prá ela. Mas nada aconteceu. Nem o telefone tocou. Voltou prá casa cantando no carro. A música dizia prá não deixar nada prá depois, não deixar o tempo passar. Ela não tinha deixado passar, tinha dito tudo. Mas ele não sabia que o tempo passava muito rápido e que quando a gente vê, a vida já está indo pelas nossas mãos, fugindo de nós. Ele estava deixando que ela passasse. E ela sabia que ele ia perdê-la. E ela sentia muito por isso.
O futuro é o presente e o presente já passou, dizia a música. A mais cristalina verdade.
Comprou duas cocas, prá beber de manhã quando acordasse.
Foi dormir. Ficar acordada tinha ficado difícil demais.