Mais um dos textos guardados...
Lucidez
É difícil viver, quando se conhece todas as possibilidades, quando se sabe o que se pode esperar, de si e dos outros.
É dificil encarar o mundo, acreditar nas pessoas, quando já se passou por tanta mentira.
É dificil não endurecer o coração, não deixar o medo nos paralisar.
É dificil controlar a mente, impedindo que vivências anteriores turvem novos horizontes.
Não posso deixar a vida passar, me tornando mera espectadora, estática frente a realidade. Ou um ser isolado do mundo, preso nas grades da desconfiança.
Não posso permitir que nada destrua a certeza de um grande amor.
Não posso atordoar minha mente.
Confio na minha capacidade de amar, de me deixar ver, de ser sincera, de construir momentos felizes.
Devo confiar no que vejo nos olhos do amor. Confiar nas palavras não ditas.
A dor foi grande, e ainda teima em aparecer por frágeis instantes, mas a lucidez é a base para caminhar.
Eclipse
Diáfanas teias do teu amor me envolvem
Tez de clara mansidão, sol de outono
Tênues sinais de calor e do úmido contato.
Penso que me entregarei a ti como a lua
Mistura de claro e escuro, um eclipse eterno
Na temporária estada do teu corpo.
Serei como luz fugidia após o beijo
Presa no teu abraço em meu proprio desejo
Pupilas de ilusão enganam tua mente
Não sou eu que você vê, miragem apenas.
Desaparecerei envolta em brumas de calor
E te deixarei só, apenas com a lembrança
Do meu suspiro em tua boca,
Da minha pele na tua.
Mais algumas produções antigas, que estavam guardadas nos meus alfarrábios, vulgos drafts.
Só
Hoje eu estou nitidamente só. Só de mim mesma, só de tudo. E da minha solidão interna percebo um mundo distorcido lá fora, sem nenhum sentido. Não consigo ver as razões e métodos, não consigo antever meu caminho.
Apesar dos meus passos serem sólidos e meu corpo, ereto, minha alma se curva a impossibilidade de entender a minha solidão.
Meus passos pelo salão cheio de vultos difusos não tem direção. Onde vou?
Como sempre
E você, como sempre, me toca a alma. Posso antever os seus dedos brincando de apertar meus seios, em um gesto tão casual quando delicioso. Nos olhos, um sorriso maroto de quem sabe o efeito do toque. Sabe que me desperta o desejo, que me atiça. Por isso faz assim, tão como quem não quer nada.
A mão de vez em quando passa sorrateira e dá um tapinha, só prá ver a reação, só prá ver a vontade despertada. Brinca de me acender, sabe que é só me olhar.
E quando quer me toma, me deixa deslizar nos seus braços. Me sacia a fome e me faz dormir.
E eu te amo mais a cada dia.
Estarei publicando, em suaves levas, alguns poemas mais, digamos, ousados; sonetos e outros de verso livre, conforme a inspiração me guiou.
Sejam convidados a conhecer uma das faces da mulher camaleônica que mora em mim.
Você me tem quando quer
Você me tem quando quer,
E você não está aqui.
E enquanto isso eu rolo na cama,
E anseio por ti.
Você me tem quando quer,
E você não está aqui.
E eu te imagino em mim,
E meu corpo dói por dentro.
Você me tem quando quer,
E você não está aqui.
E eu te faço presente,
E mesmo assim não me basta.
Você me tem quando quer,
E você não está aqui.
E eu durmo agitada,
E meu corpo pede por ti.
Você me tem quando quer,
E você não está aqui.
E eu acordo molhada,
E meio dormindo imagino...
Que você está aqui.
Brumas
Teu é o meu desejo espelhado em difrações de olhares fugidios,
É tua a boca que anseio em mim, úmida e demorada.
Minha alma se perde no ardor dos teus olhos, desvelada.
Nos meus seios, são tuas mãos que deslizam em arrepios.
Descansar em teus braços é paraíso, caminho de carícia,
Tua simples presença ao meu lado me acende e atiça,
Como resistir ao toque da tua pele quente que me roça,
E teus braços que envolvem meu corpo com malícia.
Me entrego ao teu amor que me penetra e seduz.
Meus sentidos se turvam em brumas de prazer.
Mais que tudo, é tua minha vida, meu ser.
E é teu tudo o que imagino traduzir em luz.
Equação Neurológica
Será que eu realmente controlo o comportamento do meu corpo e da minha mente? Ou será que sou apenas um produto da padronização das respostas aprendidas pelo meu cérebro em função dos estímulos que recebo dos meus sentidos?
Até que ponto eu não sou uma equação neurológica?
Ouvindo: Toxicity [System of a Down]
Perdidos
Na verdade, ela estava livre. E a sensação era muito boa. Chegara no barzinho com as amigas, disposta a se divertir, tomar um chopp e relaxar, depois de um dia de trabalho extremo.
Os amigos estavam todos lá, os grupos formados nas mesas. Em um canto estava o ex, fato esse notado pela melhor amiga, já que ela nem tinha prestado atenção. Nem olhou que era prá não se aborrecer. Não ia desperdiçar a noite.
Paqueras diversas pela festa, já que o clima do bar era esse. Ela não estava muito antenada nisso. É que a paciência tinha chegado ao fim com o último relacionamento. Chegara à conclusão que não dava pra confiar nem na sua própria sombra, muito menos nos outros, com ou sem sombras. Estava mais para ouvir música e falar besteira. Tiradas espirituosas não faltavam.
O barzinho era conhecido pela profusão de tipos estranhos que circulavam. Tinha de tudo. Patricinhas de rosa, totalmente deslocadas; moçoilas de vestido listrado colado, que infelizmente ressaltavam o quadril enormemente desproporcional; cabeludos de plantão, sacudindo as madeixas ao som do Metallica; gatinhos diversos; homens bonitos e feios também. De fato, um vasto plantel para boas risadas.
No melhor da conversa, lá pelas 2 da manhã, eis que surge um rapaz que teimava em reduzir a área disponível para ela, sendo que a mesma já era exígua. Depois de duas ou três encostadas razoáveis e de uma pisada na barra da calça, ela não teve outra alternativa senão falar com ele:
- Olha, você está me apertando.
- Desculpa !!!
Ela ficou encantada com o olhar dele. Que olhar!!! Ficou pensando se tinha mesmo visto aquilo ou se era apenas a escuridão do lugar que a fizera percebe-lo daquela forma.
A amiga estava perto e viu no semblante dela aquele ar intrigado. Não conversou. Foi lá junto ao rapaz e disse-lhe algumas coisas no ouvido. Ela se voltou curiosa e perguntou o que estavam conversando. Nesse momento, a amiga retirou-se da conversa e deixou-a ali, à mercê daquele olhar.
Ele falava próximo a ela e ela podia sentir a respiração dele. Aquilo estava ficando insustentável. Não era para isso que ela tinha saído de casa. Não estava previsto encontrar aquele olhar. Ele a estava hipnotizando, e quando deu por si, o beijo já havia acontecido. O olhar permanecia ali. Ele, tão hipnotizado quanto, acariciava os cachos que caiam sobre os olhos dela. A música somente dava o ritmo para que os dois corpos dançassem como um só.
Envolvidos que estavam, nem perceberam o tempo passar. Só existia o mundo entre um olhar e o outro. Perdidos em si mesmos, retiraram-se do bar. Os amigos não puderam localizá-los até hoje. Acredita-se que não encontraram ainda o caminho de volta ao mundo real. Na verdade, parece que sequer procuraram.
Ouvindo: Refrão de Bolero [Engenheiros do Havaii]
De vez em quando, a inspiração assume outras linguas, pensamentos estrangeiros na minha mente...
Let me
I dive in your dark eyes
Pools of love and care
And as I swim in your tears of joy
I can feel complete and secure
I climb your sweet body
Mountains of pleasure and desire
And as I walk in your pathways
I can go far and beyond
Let me be your only lover
Let me be your truly friend
Let me confort you
Let me understand
I sail your tormented seas
Oceans of happiness and trouble
And as I travel your destinies
I can be free and hole
I fly on your secret dreams
Histories of unknown pasts
And as I live your tales
I can fulfill my own inside
Segue a tradução...
Deixe-me
Mergulho nos seus olhos escuros
Águas de amos e carinho
E quando nado em suas lágrimas de alegria
Eu posso me sentir completa e segura.
Eu escalo seu doce corpo
Montanhas de prazer e desejo
E quando caminho em suas estradas
Eu posso ir longe e além
Deixe-me ser seu único amor
Deixe-me ser sua amiga verdadeira
Deixe-me confortar você
Deixe-me entendê-lo
Eu singro os seus mares revoltos
Oceanos de felicidade e problemas
E quando viajo os seus destinos
Eu posso ser livre e completa
Eu vôo nos seus sonhos secretos
Histórias de passados desconhecidos
E quando vivo seus contos
Eu posso preencher minha própria alma
A pedidos, informo aqui a volta à ativa do blog Catarro Verde. Quem se aventurar, recolhe como prêmio um monte de tiradas mordazes. Eu não resisti e fui.
Insone
Sono, sinto sono,
Mas meu corpo acorda,
Desperta, e quer mais,
Teu abraço, olhar sagaz
Me sonha, me beija,
...............envolve.
Prazer insone.
De trás prá frente
No pescoço
Atrás da orelha
O beijo
d
e
s
c
e
e vai chegando ..................................... e ....e aí, o estrago está feito.
..... vai chegando ............................... b
...............chegando ........................ o
.................no ombro ... O arrepio ... s
Aferências
Um dia
Dois dias
Três dias
................ Uma eternidade
................ Tua voz
................ Melodia
................ Meu som
................ Tudo teu
................ Todo meu
Um beijo
Dois beijos
Três beijos
................ Sem palavras
................ Tua voz
................ Tuas mãos
................ Abraço quente
................ Infinito
................ Aferências
................ De
Uma noite
Duas noites
Três noites
................ Novos
................ Engramas
................ Compassos
................ Ritmos
................ De mim
Ao som da pele
Ele vai descobrindo o corpo dela nos acordes da música. Como brincadeira, vai descortinando a pele, deixando-a nua à luz do luar. As mãos acariciam suavemente, como se a melodia nascesse do contato entre os corpos. Ela se move no ritmo, permitindo o avanço desejado. Deixa que ele componha nela uma obra de arte.
O solo da guitarra aumenta a ânsia de tocá-la por inteiro. O beijo iniciado continua sem pausas. O resultado não poderia ser melhor. Som e noite se misturam. O amanhecer será radiante.
Ouvindo: You take my breath away [Queen]
Amizade
As grandes amizades nascem do aflorar de afinidades. Descobrem-se gostar das mesmas coisas, as palavras brotam com facilidade. Longas conversas onde o tempo não parece existir. E assim, sobre os pilares em comum, entremeados de pequenas áreas de discordância necessária, vai-se construindo. E uma só vida pode ser pouco prá viver tudo que pode ser vivido. É por isso que eu acredito que grandes amigos se reencontram pelo caminho. E se reconhecem. E se abraçam novamente. Para recomeçar a jornada.
Ouvindo: Old Love [Eric Clapton]
Música
Os acordes se encadeiam e minha mente viaja. Sigo os passos, encantada, e meus pés pisam nas marcas deixadas pela melodia. Passageira das letras; na bagagem, os arranjos. Imagino um mundo sem som e não mais existe mundo, não esse mundo de emoções. Apenas um vazio sem contornos e luz.
No meu mundo pleno de música, eu existo. Nos solos das guitarras, encontro o colorido para pintar cenários. Na percussão, o ritmo para me doar ao amor. Nos vocais, a inspiração para declarar minha paixão pela vida.
Ouvindo: Bohemian Rhapsody [Queen]
Teu beijo
Teu beijo tem gosto de lua
Tem gosto de noite
Tua voz, melodia no ar
Maravilha do mundo
Sorri e me diverte
Olho para o alto
E lá está você
Braços abertos pra mim
Cabelos ao vento
Envolvem como teia
Teu beijo, lua cheia
Desejo te ver
Acordes de paixão
Ouvindo: Somebody to love [Queen]
Estrela
Cada raio de luz meu te queima
Cada vislumbre de mim te cega
Cada toque meu te fere
Cada palavra minha te machuca
É por isso que me afasto de ti
Cortando o céu
Cada dia de amor uma tortura
Cada música uma lembrança
Cada imagem no ar um espelho
Cada abraço um poema
É por isso que vou distante
Para não mais voltar
Estrela
A estiagem das lágrimas
Eu me preocupei quando não consegui chorar. Quando isso aconteceu, era por que alguma coisa não ia bem dentro de mim, algo havia se transformado em pedra. Por algum tempo eu estive assim, sem conseguir derramar uma só lágrima, chorando em seco, um deserto. Foi quando eu busquei dentro de mim a criança, aquela que ficava escondida no canto do quarto, amedrontada com os monstros que moram dentro dos armários. Os mesmos que saem à noite, quando estamos dormindo e nos perturbam o sono, disfarçados nas sombras. Aquela criança, que observava de olhos entreabertos as luzes dos carros que passavam movimentarem as sombras, e tinha medo.
Quando eu a encontrei, pude chorar novamente, dessa vez pelos verdadeiros monstros, pelo medo do desconhecido e também pelo que sabia ser verdade. E depois do pranto, percebi que, como as luzes descortinavam os falsos monstros, as lágrimas me aliviavam, e eu conseguia perceber que, apesar de tudo, eu ainda era capaz de sair do canto do quarto e lutar pelo que almejava.
Hoje, a criança continua aqui, e eu me encontro com ela quando estou na estiagem das lágrimas. E depois que choro, sei que serei capaz de continuar meu caminho. Sei que é apenas uma passagem necessária, uma ponte para atravessar o rio.
Ouvindo: Release [Pearl Jam]
Amar
Amar, o que é amar.
É desejar-se de uma só pessoa
É não poder desviar o pensamento
É compassar-se ao ritmo de outro
Coração
Amar, o que é amar.
É desejar a presença da mente
É ansiar pelo calor do corpo
É desmanchar ao simples
Olhar
Amar, o que é amar.
É o cheiro na roupa
É a música que fala à alma
É a paz que foge pelos dedos na
Ausência
Amar, o que é amar.
É quando distância é nada
É quando tempo não conta
É quando o lugar é onde está o
Sonho
Amar, o que é amar...
Poesia vinda do blog Por hoje é só, do meu amigo Agasea. Lindas poesias e ensaios. Vale a pena visitar.
De volta (mais uma vez)
[José de Morais]
Não tenho nada para dizer em meu favor
E nem posso dizer que entendo sua dor
E enquanto vou e venho
Ainda sopra o vento
Provando que é fiel o seu amor
Às vezes nem eu mesmo consigo entender
Porque faço o que não quero fazer
E nesse meu dilema
O maior problema
É ficar ainda mais longe de você
Você vai até me perdoar eu sei
Mas e se eu falhar mais uma vez?
Quantas vezes você vai me receber de volta?
Quantas vezes mais eu preciso tropeçar
Até aprender andar...
Em branco
Uns dias são melhores, outros nem tanto, mas nada disso importa. O que importa é se você tenta ser feliz, busca fazer os outros felizes e vive intensamente cada minuto. Por que se não está sendo assim, você está passando em branco, deixando a vida escorrer pelos dedos.
Ouvindo: Don't let the sun go down on me [ Joe Cocker]
Poesia de autoria de uma moça de Brasília, Gláucia Almeida, que por sinal tem mais uma coleção delas no seu blog, 100 licença Poética. Vale a pena conferir...
ela morreu...
Se lhe perguntarem
do que foi que ela
morreu,
diga-lhes: de uma
constante solidão.
foi de tanto se olhar
no espelho
e ver,
refletido nele,
o mesmo raio de luz
sombrio e singular.
diga-lhes que as paredes
da casa já não aguentavam
vê-la andar de um lado
para o outro
tendo como única companhia
o mesmo disco durante
a noite toda.
diga-lhes que o vazio
afogou suas mágoas
até a última gota
e que a vitrola
já não mais suportava
tocar a mesma música.
morreu de solidão
injetada na veia
pela agulha do toca discos.
Criança
Ser criança na minha casa
É achar que o mundo se resume a skate e futebol
É pensar que não existem problemas maiores que um dia de chuva
É ver o mundo como uma partida de CS, que sempre pode ser recomeçada
É ir prá escola prá conversar e zoar com os amigos e só depois estudar
É namorar e gostar de uma menina, com direito a declarações de amor virtuais
É ir por cinema pra tudo menos prá ver o filme
É andar em bandos pelo shopping, olhando rodinhas e tênis nas vitrines
É tomar banho sob pressão
É ter cabelo grande e furos nas orelhas
É disputar uma vaga no MSN
É ter medo de filme de terror
É dormir agarrado na mãe
Amo vocês mais que tudo...
Ouvindo (com eles): The Unforgiven II [Metallica]
Fogo
Teu fogo me aquece.
Me aproximo, borboleta,
E sinto o calor me derreter as asas.
E me afasto, e então,
O frio congela meu coração.
Qual a medida certa
Para sobreviver
À tua chama?
Ouvindo: If you love somebody set them free [Sting]
Palavras
Palavras são assunto esquivo, escorregadio. Uma hora estão aqui, outra, ali. Posso com elas declarar amor, ódio, amizade, tristeza, alegria. Posso fazer parecer o que eu quiser. Posso levar quem lê a qualquer lugar, realizando qualquer fantasia. Posso ir e vir como quero, posso guiar pensamentos. Posso criar cenários, situações, sentimentos. São argila crua, pronta a ser modelada. E é isso que eu faço. E ao modelar, deixo transparecer o que eu quiser, verdade ou não. Só eu sei. É o meu mundo, que eu espalho em poesia e prosa. Meu mundo mental, ainda que por vezes uma releitura da realidade.
E eu amo as palavras. Elas são meu vício. Entretanto, em matéria de certezas e verdades, prefiro as atitudes, os olhares, os toques, a presença. Esses podem ser sentidos em energia, espelhos que são do mundo interior. Esses são a pura expressão da realidade, sem meias palavras.
Um olhar
Um olhar na multidão
E ninguém mais existe, só você
Um olhar dentro de mim
E você é o meu destino
Um olhar na praia deserta
E o teu desejo a me seduzir
Um olhar nas luzes da cidade
E eu me perco em você
Um olhar nas estrelas
E o teu abraço a me envolver
Um olhar sobre o rio
E você a me acolher
Um olhar no teu rosto
E a correnteza me leva
Um olhar, nesse olhar
Mergulho para não mais voltar
Destino
Ando na rua e a quantidade de injustiças morais e sociais que vejo me deixa a pensar. O que será que passa pela cabeça de quem acredita que a vida é uma só, que não vê a figura ampla, somente a fresta na janela? Sem acreditar em outras vidas, o que pensa uma mãe quando não tem comida em casa? Ou quando seu filho tem uma deficiência mental? O que pensa um homem que dorme na rua, porque não tem pernas para trabalhar nem uma família pra acolhê-lo?
O que seria de mim se não fosse o meu entendimento da razão dos acontecimentos da vida? Tento direcionar meu pensamento para essa direção, buscando compreender atitudes e posturas dos que estão ao meu redor. Penso em como justificar, sob a ótica cristã conservadora, que meus olhos e mãos são perfeitos, que eu tenho saúde, que tenho um cérebro pensante, que sei amar, que sei demonstrar o que sinto, enquanto tantas pessoas se debatem em prisões, muitas vezes físicas, outras mentais.
Tento explicar tudo isso pensando em uma só vida e não consigo. Volto à fé racionalizada que me guia e me sinto confortável. Aqui, nesse canto kardecista, encontro as explicações. Aqui, os sofrimentos tem uma causa, as responsabilidades estão sobre os ombros de quem tem como agir, e a felicidade é uma recompensa lógica das atitudes de amor. Aqui, todos estamos onde devéríamos estar, para que possamos melhorar a cada dia. Aqui, causa e efeito têm relação direta, e independem da sua crença, somente das suas atitudes. Aqui, existe justiça em Deus. Aqui, o destino de todos nós é a luz.
Haunted
I know the way you stare, your thoughts
Between the lines on your words
I can read messages and desires
Random mixed travelers
And I understand the signs in the mirror
Dive in the black of your eyes
Swim on your fantasies, images of night
I see myself smiling in a reflection
What crosses my mind? I know not.
My mind was taken from you, haunt me.
Skin tattoed by your glance.
I surrender, and I dance
In your arms of shadow I lose myself.
Phantom of my dreams, I'm scared.
So I hide between the trees to scape
Your starving eyes, your hungry touch.
How can someone scape from within?
Haunted
Conheço teu olhar, conheço teu pensamento.
Nas entrelinhas das tuas palavras.
Eu leio mensagens e desejos.
Passantes randômicos, misturam-se.
E eu no espelho interpreto os sinais.
Mergulho no negro dos teus olhos.
Viajo nas fantasias, imagens de noite.
Um reflexo de mim me sorri.
O que eu penso? Não sei.
Mente tomada por você que me assombra.
Pele tatuada pela impressão do olhar
Me rendo e danço
Nos seus braços de sombra me perco
Assombra meus sonhos, tenho medo.
Me escondo entre árvores para escapar
Dos seus olhos famintos, do seu toque
Como pode alguém fugir de si mesma?
Ouvindo: Fear of the dark [Iron Maiden]
Eu te espero
Eu te espero.
Prá tomar Buchana's no meu umbigo.
Prá fazer cosquinha com a língua.
Prá dizer que me adora.
Prá rir do nada.
Eu te espero.
Prá rolar de um lado pro outro.
Prá ouvir o barulho da chuva.
Prá olhar as estrelas no céu.
Prá me tocar.
Eu te espero.
Prá deitar no teu colo macio.
Prá ouvir o teu coração bater.
Prá sentir tua mão na minha.
Prá sonhar acordada.
Eu te espero.
Prá conversar sobre a vida.
Prá ouvir uma música.
Prá te marcar de unha.
Prá ser tua.
Eu te espero.
Ouvindo: Oceans [Pearl Jam]
Sequência
Teu braço. Um abraço. Teu cheiro. Um beijo. Outro beijo. Um sorriso. Like a Stone. Tua mão. Lugar errado. Não errado. Hora errada. Só depois. Meu sorriso. Outro sorriso. Beijo. Teu olhar. Aquele olhar. Olhar. Olhar. Beijo. Wish you were here. Teu cheiro. De novo. Abraço. Apertão. Outro apertão. Mão descendo. Beijo. Beijo. Vamos embora. Agora.
O meu lado poesia teve uma oportunidade de aflorar no site Poesias e Afins. Quem quiser, pode fazer uma visita e comentar.
Hoje tem prova de Fisiologia. Assunto: Sistema Cardiovascular.
Eu já gastei mais tempo do que deveria tentando entender funcionamentos e defeitos, do meu coração e do dos outros. Tentei estabelecer parâmetros de segurança, questionários para diagnóstico, procedimentos padronizados, mas não adianta.
Amar é como na medicina, não existe sempre, e não existe nunca. Não se consegue enquadrar sentimentos, prever reações. O coração dos romances, tal qual aquele que impulsiona o nosso sangue pelas veias, muitas vezes não obedece nossos comandos conscientes e teima em seguir por rumos perigosos e desconhecidos. É quando nos perdemos. É quando deixamos que o inconsciente autonômico tome conta de nós e já não somos mais donos da nossa vontade. Cegos, nem queremos ver. Viajantes desavisados e imprudentes.
Mas como tudo é perfeito, rapidamente o mesmo inconsciente assume o controle, impulsionado pela percepção do nosso desequilíbrio, e nos retorna ao nosso eu verdadeiro. Nos coloca novamente no caminho certo e seguro. Nos toma pela mão, abre nossos olhos e nesse momento, torna nossa percepção clara.
E assim seguimos dia após dia, sujeitos aos descompassos dos sentimentos, à mercê de enganos, prontos a tropeçar a cada esquina. Avançamos, apesar de tudo, com o coração batendo forte, dispostos a buscar a felicidade. O medo é sempre um evento passageiro, que caminha lado a lado com a cegueira. Dentro de nós, a nos impulsionar, existe a certeza de que para cada coração perdido, existem braços carinhosos que acolhem e cuidam. Que nos guiam de volta pra casa, em direção à luz.
Ouvindo: Gethsemane [Nightwish]
Luau
A lua subia prateada, enquanto as siluetas se contorciam ao som da música. A maré vinha baixando e a praia estava cheia para a festa. Em um palco montado na areia, as bandas se seguiam uma a outra, e o som não parava desde o anoitecer.
Ele estava lá, parado, com um chopp na mão, observando o movimento, Os amigos ao redor brincavam e riam, mas ele estava concentrado nos passantes, como que procurando alguém.
Ela vinha dirigindo e pensando se a maré já tinha chegado no seu momento mais baixo. Imaginou se o banco de areia já estaria aflorando do mar. Pensou nele, se ele estaria lá. É claro que sim. Todos estariam lá, porque não ele?
Ele foi comprar outro chopp. Ela estava demorando a chegar. Será que ela tinha desistido de vir? Ou será que o carro tinha dado problema de novo? Ela ainda se lembrava da última "pane" do carro dela, que ele tinha gentilmente ajudado a resolver.
Ela estacionou junto a um coqueiro, e rezou para que nada caísse sobre o carro. Mais um amassado e ela se sentiria obrigada a parar para consertar. Andou guiada pela música, flutuando sobre a areia, passos apressados, não podia perder a maré. De longe ela já viu o que lhe interessava. Ele estava na fila do chopp, prá variar. Era a deixa necessária. Aproximou-se e estendendo uma nota de cinco reais, pediu:
- Compra um pra mim também?
Ele abriu aquele sorriso lindo e disse:
- Claro, mas fica aqui do meu lado.
Ela podia ler os pensamentos dele. Isso era muito interessante entre os dois. Eles sabiam exatamente o que o outro estava pensando, mesmo que estivessem brigados ou afastados. A sintonia nunca morria. E naquele momento, o que ela lia era impublicável.
Foram caminhando juntos em direção ao grupo de amigos. Foi só chegarem perto que todos começaram a rir.
- Mas vocês dois já se encontraram? Tão rápido?
- A gente nem tenta entender mais. Vocês não têm jeito.
Ela ficou vermelha e ele também. Afinal, nem eles entendiam bem. Ele aproveitou a oportunidade e já envolveu o corpo dela em um abraço, e seguindo com um beijo que parecia interminável. Os pensamentos dele continuavam impublicáveis.
Se afastaram um pouco, enquanto os amigos continuavam a zoar com eles. Eles nem ligavam, sabiam que todos gostavam da idéia de vê-los juntos, mesmo que fosse de vez em quando.
Ela ohou a maré e o banco de areia já estava surgindo. Ela conhecia aquele lugar como a palma da mão e um flash passou em sua mente, uma idéia que combinava com os pensamentos dele.
- Vem cá. Me segue.
Ele nem pensou duas vezes. Sabia que podia confiar nela.
- Conheço um lugar que você precisa ver.
Entraram no mar em direção a areia que surgia. A praia temporária espalhava-se por mais de um quilômetro, como uma gigantesca estrela de múltiplos braços, estendida sob o luar. Ela sabia exatamente por onde andar.
Outros grupos também começavam a seguir mar adentro. Ela nem se preocupou, eles não iriam atrapalhar.
Eles seguiram caminhando, a praia já estava próxima quando ela desviou para a esquerda, afastando-se dos demais, que seguiam em direção ao centro da estrela. Ele não hesitou em caminhar ao lado dela, sabia o que ela tinha em mente. Foram até um muro de corais que surgia do mar, e contornando-o, encontraram a ponta do braço de areia, quase uma cama ao luar.
E amaram-se sem muitas palavras, apenas o instinto e a intimidade guiando a sequência de ações. O corpo dela à luz da lua fazia com que ele não visse mais nada, hipnotizado. As mãos dele percorriam cada pedaço dela, redescobertas. Deitados olhando as estrelas, eles riram, conversaram.
Ele dizia que ela havia provocado. Ela ria, contando como simplesmente lera os pensamentos dele. Ambos sabiam a verdade. Eles se desejavam e pronto. Gostavam de estar juntos, mas não podiam se ter. Tinham um enorme carinho e que o mundo se encarregasse de dar nome a isso. Não importava. Riram e beijaram-se e rolaram na areia molhada. O som do mar próximo, tocando o coral, alertava que a maré recomeçara a subir. Entraram no mar, nadaram juntos, quase que reiniciando tudo, mas o tempo não permitia, o mar subia rápido.
Retornaram caminhando e misturaram-se aos outros que também retornavam. O som das banda já podia ser ouvido, a festa continuava a rolar solta. Reencontraram os amigos, que não fizeram questão de perguntar nada. A situação era clara porém jamais teria uma explicação. Estavam frente a frente com uma nova forma de amar.
Ouvindo: Long and Winding Road [Sarah Vaughan cantando Beattles]
Engano
Você pensava me enganar e eu te deixei achar assim. Deixei que você me conduzisse por onde eu queria ir, em uma louca trilha, até pra ver onde chegaríamos, juntos ou separados.
A diferença é que o meu sentimento era outro, diferente do seu, meu destino também. Cursei rumos muitas vezes obscuros para te seguir, mas não perdi de vista meu porto. Mas isso é passado. Não mais.
Vejo hoje o farol ao longe, a me guiar. A viagem tornou-se mais fácil.
Boa viagem prá mim.
Ouvindo: Dirty Man [Joss Stone]
Tempestade
É noite. A montanha alta e íngreme termina abruptamente na praia, em uma fina linha de areia, devorada constantemente pelo mar agitado. Parece que foi cortada, para que a praia pudesse sugir.
O mar é frio, congela cada parte do meu ser, ondas revoltas na arrebentação. Vagas gigantescas sobem e descem e eu perdida nas ondas, lutando para ficar à tona. Não desejo fugir, pois sei que o mar, com suas intempéries e calmarias, faz parte do destino de quem se arrisca a viver. Só preciso sobreviver a mais essa tempestade. Encontrar abrigo e continuar meu caminho.
Você me olha do alto da encarpa. Me vê em meio às ondas mas nem um músculo do seu rosto se move. Freeze. Por vezes penso em vislumbrar um movimento tênue das mãos, mas logo percebo que é apenas o meu desejo e não realidade. Permanece ali, sentado a observar o mar e a tempestade. Apenas uma sombra ao pálido luar.
O vento frio congela você, assim como o mar me congela. Ambos do mundo, caminhos afastados. Eu lutando por calor, você paralisado até a alma.
Ouvindo: Nemo [Nightwish]
Despedida
Ele veste a roupa nela de um jeito tão suave, que parece que ele tem medo que ela se quebre. O olhar é lindo, quente, profundo. O roçar dos braços dele nas costas dela faz com que ela se arrepie, os seios empinados surgem na blusa recém-colocada. Ela fecha os olhos e se lembra dos momentos que acabaram de viver. O tempo pára.
Ela olhava enquanto ele tomava banho, desejando cada pedaço dele. A voz divertida contando histórias mostrava que eles ainda tinham muitas coisas em comum, apesar dela não saber muito bem o que se passava na cabeça dele. Mas naquele momento, o que ele estava fazendo era atiçar, provocar, acordar qualquer parte dela que estivesse adormecida. E estava tendo sucesso.
Ela se virou para sair da porta do banheiro, e nesse momento sentiu o abraço. Ela de olhos fechados pode reviver o abraço, seguido dos beijos e mãos e paredes e roupas espalhadas pelo chão. O prazer que ela sentia era indescritível. Não era só o êxtase que tomava seu corpo, era o olhar dele, a expressão de desejo, o carinho escondido em mordidas. Ser dele era a melhor sensação que ela havia experimentado.
Os dedos dele agora brincavam nas costas dela, enquanto ela dormitava em um abraço infinito.
A possibilidade de adormecer e não ver o dia nascer impedia que ela fechasse os olhos. Permanecia olhando o rosto dele, quase uma fotografia mental. Guardando momentos.
Decidiu abrir mão daquele momento para que ele pudesse descansar. Beijou-o e pediu para ir embora. Ele começou a vestí-la.
Ela abre os olhos, e os ponteiros do relógio voltam a andar. Ela tem que ir. Ele a leva até o carro, despedem-se com um beijo. Ela leva no bolso a felicidade do que viveu. Ele fica apenas com um vazio criado por ele mesmo. O vazio da ausência dela.
Ouvindo: For the love of you [Joss Stone ]
"Quando todas as possibilidades nos são tiradas, a menor das aberturas se transforma numa grande liberdade... De certa forma, os contos de fadas, ou os romances, nos dão a liberdade que a realidade nos nega."
Azar Nafisi, autora de Lendo Lolita em Teerã, em entrevista à revista Veja (Ed. 1861)
Ouvindo: Release [Pearl Jam]
Utopia
Você me chega radiante. Sorri teu sorriso de luz e me erge nos braços, beija-me a boca e o pescoço, num gesto de desejo à flor da pele. Eu te recebo como viajante há muito distante, retornando de longa viagem. Me abro em carinho, em amplitude de olhar. Nenhuma palavra é necessária.
Seguem-se longos momentos de conversa clara cheia de vida, de calor. Os gestos são incontidos. Alegria de estar juntos, simples presença.
Alimento teu corpo de fruta e pele, néctar e perfume, enquanto você me toma a alma, saciando a fome de me ter. Energia em sintonia, teu abraço me envolve e acolhe o descanso, enquanto brinca de dedos caminhantes em minhas costas nuas.
O sono ao teu lado me leva ainda mais longe, imaginando mãos dadas lado a lado, em uma construção sólida. Te confio e me confias, nos sabemos amantes, desejo encontrado e mantido, almas em sintonia.
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