Deixei ir.. deixei que me fosse levado o âmago pela correnteza do conceito infundado e fiquei, assim, vazia de tudo, impotente, exclusa, na beira do rio, a olhar os barcos que passam.
Star...
Domingo, Julho 29, 2007
Quarta-feira, Julho 18, 2007
Carta ao meu amigo Ismael
Prometi voltar a escrever. E, é claro, todo mundo acreditou, porque eu não costumo faltar com a palavra. Entre corredores de tribunais e hospitais, entre acórdãos e pacientes, meu tempo tem sido curto, mas minha mente permanece atenta. Deixei de escrever alguns dias, e logo veio o recado carinhoso do meu grande amigo Ismael. "Já parou?" Não, meu amigo, eu não parei.. Ainda ontem estava preparando meu espírito para escrever. Mas o que eu queria dizer na ocasião ainda não estava maduro para ser escrito. Desde ontem, entretanto, meu coração está calado pelo luto.. Nem sei o que seria da minha vida se estivesse eu no lugar da mãe que perdeu dois filhos, ou daquela que perdeu duas filhas, ou mesmo da mãe da aeromoça que perdeu um neto não nascido. Penso na dor evitável, tão facilmente evitável. Dependeria apenas de compromisso. Compromisso daqueles que deveriam cuidar e não o fazem. Compromisso de quem arrisca a vida dos outros. Fico pensando: qual a garantia que estes senhores tem de que seus filhos e genros e noras e netos não estarão inadvertidamente viajando pelos céus do país? Será mesmo que eles são burros além de irresponsáveis? Será que pensam que a roleta russa acontece apenas com os outros? Ou será que pensam que Deus protege os corruptos e os irresponsáveis? Fico pensando nas férias que meus filhos terão no próximo mês, quando estarei embarcado os quatro em um avião. Na verdade, estarei embarcando minha vida, minha felicidade, minha sanidade, e entregando tudo isso nas mãos de Deus. Sim, nas mãos de Deus, por que apenas ele pode cuidar dos inocentes, quando os responsáveis brincam de governar. E ficarei, por pelo menos 20 dias, com o coração apertado e doído, esperando que minha felicidade me seja devolvida inteira, completa. Fiquei pensando em não deixar que eles fossem, mas quem sou eu para pedir que eles abram mão de férias em Bariloche, só porque a mãe está surtando. Tem momentos que a vida nos prega peças e então percebemos a impotência diante dos fatos. Resolvi apenas pedir que a rota deles evite Congonhas. Pelo menos isso, para aliviar meu coração. Mas isso é só um curativo, um paliativo. Não é a verdadeira cura. O mal está ao nosso redor e em nós mesmos, que permitimos que a nossa felicidade, nossos filhos, pais, irmão, amigos sejam entregues, como cordeiros, para serem imolados. Somos piores que nossos antepassados, que faziam sacrifícios aos deuses. Eles, pelo menos, o faziam com base em uma crença. Nós somos apenas covardes e omissos. Obrigada, meu amigo, por me incitar a falar. Isso tudo estava deveras entalado.
Se a vida fosse como um filme, com direito a script, roteiro e refilmagem de cenas, muitas cenas teriam um tratamento diferente dos fatos na vida real.
Muitas coisas eu não faria novamente, não por arrependimento, mas por absoluta inutilidade dos ditos feitos. Cenas dispensáveis, daquelas que cansam a gente quando vemos um filme. Partes onde quem tá com fome levanta pra pegar um tira-gosto e os que estão apertados vão correndo pro banheiro. Os erros cometidos seriam mantidos, por que é a partir deles que se aprende a viver e a respeitar os outros. Os espectadores precisam ver que você é um ser normal e não um deus, com direito aos tropeços e às retomadas.
Outras cenas, daria a elas um enforque distinto. Trilha sonora de suspense quando recebo alguns sorrisos falsos, quase tipo tan-tan-tan-tan tan-tan-tan-tan tan-tan-tan-tan-tan-tan-tan-tan-tan, para que o coração do espectador possa estar preparado para a cena da punhalada; música de amor, quando encontro aquela pessoa certa que estive buscando durante as primeiras 2 horas da película e que só no fim do filme aparece pra salvar o planeta da destruição, e a minha vida também.
Mas algumas coisas permaneceriam inalteradas, como se a vida real não pudesse ser melhorada em nada. Intocáveis. Essas são os marcos de uma vida. Esses são aqueles momentos que você guarda no coração, momentos de felicidade extrema, que alimentam sua alma nos períodos de estiagem.
"Quando todas as possibilidades nos são tiradas, a menor das aberturas se transforma numa grande liberdade... De certa forma, os contos de fadas, ou os romances, nos dão a liberdade que a realidade nos nega."
Azar Nafisi, iraniana, professora de literatura, autora de Lendo Lolita em Teerã.
Star Sacerdotise Quem profetisa
Eu sou Chris, sempre fui e sempre serei até que me dêem um novo corpo e uma nova identidade no outro plano. Mas até lá, tô feliz com esse nome. Já fui Christininha, Baixinha e outros diminutivos próprios de quem tem menos de 1,60 m. Pros meus filhos eu sou mãe, mamãe ou manhê, dependendo da situação. Pro meu pai eu sou Filhota. E quando eu escrevo sou Star.
Não tenho limites nos meus sonhos. Vejo grande, me recuso a desistir do que quero. Reconheço a mão divina que me guia e protege, e que me deixa quebrar a cara pra aprender quando eu insisto em negar meus instintos.
Sou de festa, de noite sem dormir, de 48 horas acordada direto.
Sou de ensinar tudo que sei, mas de deixar caminhar com as próprias pernas.
Sou de estudo e de leitura, tudo que me cai nas mãos, mesmo que seja bula de remédio.
Sou de música, muita música, pra dançar, namorar ou chorar. Sou do xadrez, do dominó, do Imagem em Ação de madrugada.
Sou do documentário histórico, dos making-offs, das imagens que falam mais que mil palavras.
Sou a observação em pessoa, mas só para o que é relevante, cenários não me impressionam. Meu olhar se atém na linguagem do corpo, muito mais confiável do que as palavras vãs dos dissimulados. Acredito na verdade, aquela que tarda mais surge sempre.
Sou do pensamento lógico e da emoção à flor da pele. Vivo um dia de cada vez e vivo intensamente.
Sou do cabelo comprido. Sou do rosto lavado. No corpo, jeans, camiseta e salto alto, e mais algumas coisas impublicáveis. Na mente, milhares de idéias simultâneas. No futuro, a Medicina como instrumento de serviço. Hoje, mãe, mulher, amiga, professora, poetisa, sonhadora.
Sou da Coca-cola no café da manhã, do sanduíche sempre, com muito tomate. Sou do sushi, do sashimi, do quibe cru, do steak tartar, da carne sempre vermelha, como a paixão. E crua, como os fatos da vida comum.
Sou assim, transmuto pedras em estrelas. Faço de cada dia uma vitória e de cada obstáculo, um degrau para subir. Faço de cada erro um aprendizado, de cada momento de amor, uma eternidade.
Escolhi ser feliz e viver de acordo com isso. Disse não à violência, à opressão, às ruas sem saída, às imposições e especialmente, ao preconceito.
Tenho 40 anos na carteira de identidade, mas muito menos que isso quando olho o horizonte e muito mais no que guardo no coração. Das lágrimas, mantenho o esquecimento e o aprendizado. Dos sorrisos, cada segundo na memória.
Sou de opinião firme. Sou da humildade em aprender a cada dia.
Sou uma estrela no universo.
Sou filha de Deus.